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Anti-inflamatórios não-esteróides (AINEs) tópicos: eles realmente funcionam?

03/02/2016 23:24 - Dr. Jorge Monteiro Mendes

Os AINEs tópicos (em forma de creme, gel, spray, etc.) são frequentemente prescritos na prática diária, especialmente em pacientes com lesões ortopédicas e osteoartrose. Mas algo que sempre nos perguntam: eles realmente funcionam? Podem causar lesões gástricas e insuficiência renal? Vamos falar um pouco sobre o assunto.

O uso de AINEs em formulação tópica (creme, gel, solução, adesivo) tem sido feito de forma rotineira em muitas partes do mundo, embora sua eficácia ainda seja questionada por grande número de profissionais. Estudos mostram que AINEs tópicos atingem concentrações séricas de 5-15% daquelas atingidas pela sua administração oral, o que diminuiria significativamente a chance de efeitos adversos sistêmicos.                  

Em 2004, uma metanálise publicada no BMC Family Practice avaliou o uso de AINEs tópicos na dor musculo-esquelética aguda. Foram avaliados 26 trials randomizados duplo-cegos, num total de 2853 pacientes. Os AINEs tópicos foram significativamente melhores do que o placebo em 19 dos 26 estudos, com um benefício relativo de 1.6, e um NNT de 3.8 (comparado com o placebo, para uma meta de alívio de 50% da dor em sete dias). O cetoprofeno tópico foi a substância que mostrou melhores resultados no controle álgico, e a indometacina o pior. Três trials (433 pacientes) compararam as formulações de AINEs tópicas e orais, e não houve diferenças em termos de eficácia. Efeitos adversos locais e sistêmicos tiveram incidências similares aos do placebo.

No último guideline de Osteoartrite publicado em 2008 pela NICE (National Institute for Health and Clinical Excellence – United Kingdom), o uso de AINEs tópicos é recomendado como preferencial às formulações orais, em pacientes com dor articular localizada.

Em 2010, foi publicado um review no The Cochrane Library, que incluiu 47 estudos randomizados, duplo-cegos (quase todos comparando o uso de AINEs na forma de gel, creme ou spray com placebo), para avaliar a eficácia dos AINEs tópicos em pacientes com dor aguda (a maioria com patologias músculo-esqueléticas como torsões e lesões relacionadas ao esporte). Foram avaliados 3455 pacientes, e para todos os AINEs tópicos comparados com placebo, o NNT para alívio de 50% da dor foi de 4.5. Formulações tópicas de diclofenaco, ibuprofeno, cetoprofeno e piroxicam foram as que mostraram os melhores resultados; indometacina não foi melhor que o placebo. Houve poucos eventos adversos cutâneos e sistêmicos.

Em setembro de 2012, foi publicado um novo review no The Cochrane Library, que avaliou o uso de AINEs tópicos no tratamento da dor músculo-esquelética crônica. Foram incluídos 34 estudos, num total de 7688 pacientes. Destes estudos, 23 compararam o uso de AINE tópico versus placebo. Os AINEs tópicos mostraram-se significativamente mais efetivos que o placebo na redução da dor músculo-esquelética crônica. Os melhores resultados foram evidenciados com o uso de diclofenaco tópico na terapia da osteoartrite de joelho (o NNT para alívio de pelo menos 50% da dor em 8-12 semanas foi de 6.4 para a solução, e de 11 para a formulação em gel). Nas comparações diretas entre os AINEs nas vias tópica e oral, não houve diferenças em termos de eficácia. Houve um aumento de reações cutâneas locais com as formulações tópicas; os efeitos gastrointestinais foram similares aos do placebo.

Portanto, os AINEs tópicos podem ser alternativa nos pacientes com dor músculo-esquelética localizada, de leve-moderada intensidade, especialmente naqueles de risco para desenvolver efeitos colaterais com seu uso por via oral. Algumas questões importantes devem ser consideradas:

  • A formulação utilizada pode interferir sobre a eficácia (evidências científicas ainda pobres sobre o assunto);
  • Não existem grandes estudos com comparação direta entre os diferentes AINEs tópicos e suas preparações;
  • Diclofenaco e cetoprofeno tópicos são as formulações que parecem mostrar melhores resultados; indometacina parece não diferir do placebo.
  • A maioria dos estudos avaliou o uso destas medicações por períodos máximos de quatro a oito semanas. Não há estudos robustos de segurança a longo prazo;
  • Embora menos frequentes, efeitos gastrointestinais e renais podem ocorrer com o uso destas formulações.

Referências:

  1. Derry S, Moore RA, Rabbie R. Topical non-steroidal anti-inflammatory drugs for chronic musculoskeletal pain in adults. Disponível em: www.cochrane.org (acesso em março de 2013).
  2. Mason L, Moore RA, Edwards JE, Derry S, McQuay HJ. Topical NSAIDs for acute pain: a meta-analysis. BMC Fam Pract. 2004 May 17;5:10.
  3. Massey T, Derry S, Moore RA, McQuay HJ. Topical NSAIDs for acute pain in adults.Cochrane Database of Systematic Reviews 2010, Issue 6. Art. No.: CD007402. DOI: 10.1002/14651858.CD007402.pub2Link to Cochrane Library. [PubMed]
  4. National Collaborating Centre for Chronic Conditions. Osteoarthritis: national clinical guideline for care and management in adults. London: Royal College of Physicians, 2008 (disponível em: www.nice.org.uk).

O professor e clínico geral Jorge Mendes ministra as aulas do  I Curso de Atualização em Clinica Médica

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Dr. Jorge Monteiro Mendes

CLÍNICA MÉDICA

Comentários

  • Dr. Anônimo

    19/05/2018 20:52

    Qual medicação AINE tópico na spray recomendado para dor pós atividade prongada de ballet

  • Dr. Anônimo

    19/05/2018 20:52

  • Dr. Anônimo

    19/05/2018 20:52