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Artrogripose associada com infecção intrauterina pelo Zika

21/08/2016 12:34 - Equipe Área do Médico

A artrogripose em crianças pode estar associada com infecção congênita pelo vírus Zika, de acordo com uma novo estudo retrospectivo publicada no BMJ.

A artrogripose é caracterizada por contraturas articulares ao nascimento e tem sido descrita em pacientes com exposição congênita ao vírus Zika. Os autores desta nova pesquisa  fazem a sugestão de que "a fisiopatologia dessa condição pode estar relacionada com o tropismo do vírus pelos neurônios motores superior e inferior, ou com alterações vasculares embrionárias afetando esses dois segmentos".

Os pesquisadores, liderados pela médica brasileira Dra. Vanessa van der Linden, da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) do Recife, avaliaram dados de sete crianças com infecção presumida pelo Zika que tinham microcefalia e artrogripose. Eles incluíram lactentes nos quais outras causas de microcefalia foram excluídas; duas das crianças tinham sorologia positiva para zika em amostras de líquido cerebroespinhal. Todas as crianças foram submetidas a avaliações neurológicas e ortopédicas, neuroimagem avançada, ultrassonografia articular, estudos de condução neural, e eletromiografia.

Seis crianças (86%) tinham artrogripose e ambos os braços e pernas, e todas as sete crianças apresentavam displasia bilateral do quadril. Outra anormalidade articular incluiu pé torto congênito em seis crianças (86%), contratura em flexão no joelho em cinco crianças (71%), e hiperextensão com subluxação do joelho em três crianças (43%). Deformidades articulares nos membros superiores incluiram camptodactilia em seis crianças (86%), deformidades em hiperextensão do cotovelo em quatro crianças (57%), e anormalidades em flexão do segundo ao quinto quirodáctilo em todas as sete crianças. Cinco crianças (71%) tinham adução do polegar, e duas (29%) tinham abdução do polegar.

Os exames dos nervos sensoriais apresentaram-se normais, embora o potencial de ação motora fosse de baixa amplitude na maioria das crianças. A eletromiografia por agulha mostrou sinais moderados de remodelamento. Todas as crianças também demonstraram calcificação cortical, redução do volume cerebral, ventriculomegalia, e hipoplasia do tronco cerebral e do cerebelo nos exames de imagem. Os pesquisadores observaram que a presença de malformações cervicais sugere que a infecção provavelmente ocorreu nos primeiros cinco meses de gravidez.

Os autores observaram que nesses pacientes, "a artrogripose não esteve relacionada às anormalidades articulares propriamente ditas, mas possivelmente teve origem neurogênica, com envolvimento crônico de neurônios motores centrais e periféricos levando a deformidades como resultado de posturas fixas dentro do útero".

Os pesquisadores reconheceram que são necessários mais estudos com um número maior de casos para elucidar a fisiopatologia desta associação e determinar o seguimento apropriado para crianças com prejuízo neurológico.

Um estudo recente do mesmo grupo de pesquisa discutiu as características clínicas e achados de neuroimagem em crianças com microcefalia e exposição ao vírus Zika. A nova pesquisa, no entanto, elucidou a associação com artrogripose e destaca que ainda existe um desconhecimento sobre o complexo espectro clínico da exposição intrauterina ao Zika.

"Essa doença vai além da microcefalia, com outros sintomas como comprometimento visual e auditivo, e sinais e sintomas não usuais diferentes de outras infecções congênitas, como artrogripose sem microcefalia, sugerindo que o termo síndrome congênita pelo Zika seria mais apropriado", escreveram os pesquisadores.

O vírus Zika deveria ser considerado um diagnóstico diferencial em crianças com infecções congênitas e artrogripose, concluíram os autores.

BMJ. 2016;354:i3899. Texto completo

Fonte: Artrogripose associada com infecção intrauterina pelo Zika. Medscape

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Equipe Área do Médico

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