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Caso Clínico: SUPRA-ST COM CORONÁRIAS NORMAIS? E AÍ?

03/11/2016 14:44 - Dr. Carlos Eduardo Montenegro

Mulher de 55 anos, após festa de 1 ano de seu neto, teve quadro de dor precordial em aperto, irradiando para o dorso, associada a náuseas e sudorese fria, com 2h de duração. Procurou emergência cardiológica e ECG evidenciou supra-ST de V2-V4. Foi então encaminhada para o cateterismo cardíaco, que mostrou coronárias sem obstruções e esta imagem abaixo na sístole ventricular, à ventriculografia:

E aí? Qual o diagnóstico?

Esta imagem mostra um balonamento apical do ventrículo esquerdo (VE), causado por acinesia aguda, médio-apical, associada a hipercinesia dos segmentos basais, de todas as paredes do VE. Isso é característico da síndrome do coração partido (broken-heart syndrome) ou miocardiopatia de Tako-Tsubo. E porque esse nome esquisito? Tako-Tsubo, em japonês, significa armadilha para polvos, e essas armadilhas tem formato semelhante ao da imagem vista na ventriculografia. Veja abaixo:

A miocardiopatia de Tako-Tsubo caracteriza-se por quadros de dor torácica sugestiva de síndrome coronária aguda, inclusive, cursando em boa parte dos episódios com supra-ST no ECG (principalmente de V3-V4) e alteração muito importante de marcadores de necrose miocárdica. Dispnéia e síncope também podem ser parte do quadro clínico. Apesar desses achados, o cateterismo não mostra lesões obstrutivas e evidencia, na maioria das vezes o padrão observado acima. Choque cardiogênico também pode ser parte da apresentação inicial em 10% dos casos.

Atualmente, existem critérios diagnósticos para o Tako-Tsubo, propostos pela Mayo Clinic, que são os seguintes:

1- Disfunção sistólica e transitória do VE;
2- Ausência de doença coronariana obstrutiva nas regiões correspondentes às alterações de contratilidade do VE;
3- Novas anormalidades no ECG ou elevação de Troponina;
4- Ausência de feocromocitoma ou de miocardite.
 

Todos os critérios precisam ser preenchidos para o diagnóstico e sim, a miocardiopatia de Tako-Tsubo é transitória e completamente reversível, tendo melhora completa das anormalidades encontradas na ventriculografia em 4 semanas ou menos. Além disso, síndromes coronarianas induzidas por uso de cocaína, também podem fazer parte do diagnóstico diferencial.

O tratamento segue as recomendações para outros casos de insuficiência cardíaca aguda, com o cuidado de evitar vasodilatadores e depleção de volume, caso haja obstrução de via de saída de VE associada. O prognóstico desses casos é muito bom, com uma mortalidade intra-hospitalar de 4%.

E aí? Gostou do artigo? Tem algum assunto de interesse que quer que a gente discuta aqui no blog? Alguma dúvida? Fala pra gente! Abraço e até a próxima!

 

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Dr. Carlos Eduardo Montenegro

CARDIOLOGIA

Comentários

  • Dr. Anônimo

    01/05/2017 19:34

    Muito bom!!! Obrigado por compartilhar Dr Carlos M.

  • Dr. Anônimo

    18/12/2017 20:05

    Não sabia disso. sensacional!