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Consenso propõe reclassificar subtipo de câncer de tireoide como neoplasia benigna

09/05/2016 21:16 - Equipe Área do Médico

Um estudo publicado recentemente no Journal of the American Medical Association (JAMA) está propondo a reclassificação de um tipo de câncer de tireoide como um tumor não invasivo e com baixo risco de recorrência. Se a proposta for aceita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e adotada por sociedades e entidades médicas, ela deverá reduzir tratamentos desnecessários, gastos em saúde e principalmente, aliviar o estigma que o diagnóstico de câncer ainda carrega, apesar dos avanços em pesquisa e tratamento vistos nas últimas décadas.

O estudo, liderado pelo patologista Yuri Nikiforov, da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, reuniu um time internacional de especialistas em tireoide e fez a revisão histológica de 268 amostras de tumores, oriundos de 13 instituições. Participaram do estudo 24 patologistas representando sete países e quatro continentes. Após uma série de discussões para estabelecer critérios diagnósticos que incluíram características celulares e morfológicas, entre outros, o grupo classificou 210 amostras como Variante Folicular Encapsulada do Carcinoma Papilífero de Tireoide (EFVPTC, da sigla em inglês) e dividiu-os em dois grupos a serem analisados. No primeiro, foram agregadas 109 amostras com EFVPTC não invasivo acompanhadas por 10 a 26 anos. O segundo grupo foi composto por 101 amostras com EFVPTC invasivo acompanhadas por um a 18 anos.

 
Dr. Venâncio Avancini Ferreira Alves
Imagem: Bruno Marinho

A análise minuciosa das amostras dos dois grupos mostrou que todos os 109 pacientes com EFVPTC não invasivo (destes, 67 foram tratados apenas com lobectomia e nenhum recebeu ablação com iodo radioativo) estavam vivos e sem evidência da doença ao final do segmento. Já no grupo com EFVPTC invasivo, 12 apresentaram evento adverso, sendo que cinco desenvolveram metástases à distância e dois morreram da doença. Com base nestes achados o grupo propôs que o EFVPTC não invasivo passe a ser chamado de NIFTP – Noninvasive Follicular Thyroid Neoplasm With Papillary-like Nuclear Features e deixe de ser classificado como uma neoplasia maligna.

“Para chegar ao consenso, foram dois anos analisando lâminas escaneadas, discutindo casos e refinando critérios. Lançamos de forma sólida a proposta de que nem todas essas lesões EFVPTC têm um comportamento maligno”, afirma o patologista Venâncio Avancini Ferreira Alves, diretor do Centro de Patologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, que participou do estudo.

Apesar do comportamento indolente do EFVPTC já vir sendo observado há algum tempo, o tratamento padrão para pacientes com esse diagnóstico ainda é a cirurgia de retirada total da glândula, seguida de iodoterapia adjuvante.

“A reclassificação pode poupar cerca de 46 mil pessoas por ano em todo o mundo de procedimentos agressivos como a retirada total da tireoide ou a iodoterapia. Isso deve diminuir drasticamente o número de complicações cirúrgicas, como rouquidão ou a retirada das paratireoides”, aponta o Dr. Clóvis Klock, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP).

 
Dr. Clóvis Glock
Imagem: Divulgação SBP

Além dos benefícios para o paciente, Dr. Klock acredita que a mudança poderá resultar em economia de recursos tanto para os sistemas de saúde quanto para a saúde suplementar.

“Estima-se o custo para tratar cada paciente com esse tipo de tumor varie entre cinco e oito mil dólares por paciente. Quando multiplicamos isso por 46 mil por ano, o impacto é enorme”.

Mesmo com o endosso de entidades médicas de peso nos Estados Unidos, Inglaterra e Japão, alguns especialistas questionam se a proposta de reclassificação não seria precipitada.

“Adoraria ver mais dados. Muitos acham que foi um trabalho excelente e de fato conhecemos a maioria dos autores porque eles são membros da American Thyroid Association, mas seria bom ver dados um pouco mais robustos”, disse ao Medscape EUA o Dr. Victor J. Bernet, da Clínica Mayo, na Flórida.

No Brasil, a SBP, a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) já se manifestaram concordando com a proposta de reclassificação.

 
Dra. Gisah Amaral de Carvalho
Imagem: Celso Pupo

“Já temos dados suficientes para sustentar que esses tumores, antes classificados como cânceres, têm comportamento benigno e podem ser tratados com menos agressividade”, sustenta a Dra. Gisah Amaral de Carvalho, presidente do Departamento de Tireoide da SBEM, acrescentando que o grande ganho para
 o paciente será no âmbito psicológico.

“O diagnóstico de câncer, ainda tem uma implicação emocional muito negativa para os pacientes. Portanto, serão menos casos com implicação psicológica negativa. Além disso, os pacientes poderão receber um tratamento menos agressivo”.

JAMA Oncol. Publicado online em 14 de abril, 2016. (Texto extraído do Portal Medscape)

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