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Especialistas alertam contra estimulação cerebral caseira

05/08/2016 09:18 - Equipe Área do Médico

Um grupo de especialistas em neurociência lançou um alerta sobre os perigos de se tentar a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) caseira, no estilo "faça você mesmo".

A estimulação não invasiva, que envolve a colocação de eletrodos no couro cabeludo por períodos de tempo variados, está sendo investigada em estudos clínicos para uma variedade de condições neurológicas e psiquiátricas. Também existem relatos de que ela pode melhorar a função cognitiva.

Isso levou muitas pessoas a tentar a estimulação transcraniana em casa, com o uso de ferramentas simples, incluindo uma bateria de 9 volts e alguns fios elétricos. Hoje existem vários sites na internet nos quais é possível encontrar orientações sobre como "ficar mais esperto". Têm havido relatos de alguns pais usando a estimulação cerebral caseira para melhorar o desempenho acadêmico dos filhos.

Como resultado, vários neurologistas colaboraram com uma "carta aberta" sobre o tema, publicada como um editorial na edição de julho do Annals of Neurology. A carta é assinada por quatro especialistas no campo e endossada outros 39.

Alto nível de desconhecimento

Coautor da carta, o Dr. Michael D. Fox, professor assistente na Harvard Medical School e diretor associado do Berenson-Allen Center for Noninvasive Brain Stimulation no Beth Israel Deaconess Medical Center, Boston, Massachusetts, explicou ao Medscape que o objetivo do documento foi compartilhar informações sobre o alto nível de desconhecimento sobre a técnica.

"Entendemos tão pouco sobre o que acontece com a estimulação cerebral transcraniana, e gostaríamos de comunicar isso para toda a comunidade".

O Dr. Fox sugeriu que o público em geral tem acessado informações sobre a técnica a partir de publicações científicas, que tendem a enfatizar os pontos positivos e a excitação geral sobre a nova tecnologia, sem mencionar os riscos desconhecidos ou potenciais.

"Isso pode ser interpretado como 'você pode melhorar sua função mental com uma bateria de 9 volts', mas existe um grande descompasso entre a comunidade científica e aqueles que pensam que podem fazer isso em casa, o que certamente não defendemos", disse ele.

"Os efeitos relatados em artigos científicos são usualmente menores depois da média realizada entre diferentes sujeitos", disse o Dr. Fox. "Efeitos em um único sujeito são altamente variáveis, e algumas pessoas podem ter efeitos adversos na função cognitiva".

Ele observou que a ETCC está sendo explorada como terapia experimental para muitas condições cerebrais e que seus efeitos nas funções cognitivas de indivíduos com cérebros saudáveis também estão sendo estudados.

"Mas isso está sendo feito de forma estritamente controlada com posicionamento específico dos eletrodos, correntes e cronômetros", disse ele. "Os estudos também são sujeitos a aprovação ética para ter certeza da segurança e do processo consensual, com tudo explicado claramente aos participantes. Aqueles usando a estimulação cerebral caseira podem estar usando protocolos nunca testados, e não há como monitorizá-los de forma apropriada num ambiente doméstico".

O Dr. Fox também sugeriu que as pessoas tentando isso em casa podem estar usando uma estimulação mais longa ou mais frequente do que as testadas em estudos controlados, o que pode colocá-las em risco grave de dano. "Estamos estudando a ETCC por períodos de 20 minutos, que têm sido repetidos diariamente em alguns estudos. Mas também existem relatos de pessoas fazendo a própria estimulação cerebral por horas de cada vez. Nós não temos ideia do que isso pode causar".

O Dr. Fox ponderou que o procedimento pode ter efeitos em diferentes processos cerebrais, e que isso ainda é desconhecido.

"A modulação dessas funções cerebrais é uma intervenção complexa. Ela pode produzir benefícios em alguns aspectos da função cognitiva e efeitos adversos em outros. Tudo isso precisa ser estudado e medido cuidadosamente antes de sabermos quais são as compensações".

"Brincando com fogo"

Quanto aos relatos de pais usando a estimulação cerebral caseira nos filhos para tentar melhorar o desempenho deles na escola e nas provas, o Dr. Fox foi mais incisivo: "Isso é realmente brincar com fogo", disse ele.

"Os efeitos dessa intervenção sobre o cérebro em desenvolvimento são ainda mais desconhecido, e o risco de causar dano é provavelmente muito maior que a chance de ter benefícios", comentou. "Se você quer melhorar o desempenho acadêmico de seu filho, existem formas melhores de fazer isso do que com a estimulação cerebral elétrica caseira".

Fonte: Especialistas alertam contra estimulação cerebral caseira. Medscape

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