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Estresse materno durante a gravidez associado a autismo

28/06/2016 08:33 - Equipe Área do Médico

Nova pesquisa sugere que mães de crianças com transtorno do espectro autista que carreiam o curto alelo variante do gene transportador serotoninérgico tiveram maior probabilidade de passar por estresse durante a gestação.

A análise, que envolveu dois bancos de dados separados, associou um polimorfismo específico no gene transportador de serotonina – o curto alelo do 5-HTTLPR – entre mães de crianças com transtorno do espectro autista a uma maior incidência de estresse durante a gestação.

Os achados, publicados online no periódico Autism Research, fornecem importante evidência de que um gene específico e interação ambiental afeta o risco de transtorno do espectro autista e ressaltam a importância da "saúde comportamental ideal" durante a gestação, disse o autor Dr. David Q. Beversdorf, professor da catédra William and Nancy Thompson em Radiologia, Departamento de Radiologia, University of Missouri, em Columbia.

As pesquisas ainda estão surgindo e especialistas ainda não sabem como intervir biologicamente para reduzir o risco de autismo. No entanto, mulheres grávidas sob estresse significativo podem querer procurar aconselhamento, explicou o Dr. Beversdorf.  

Eventos estressantes"Nós ainda não estamos no estágio em que afirmamos que precisamos fazer genotipagem em todas as grávidas, mas o aconselhamento é uma intervenção segura; é uma primeira medida sensata, conservadora e que não faz mal".

Os pesquisadores reuniram informação de famílias com uma criança com transtorno do espectro autista. Todas as crianças tinham menos de 10 anos; as famílias forneceram amostras para análise genética. Os bancos de dados vieram de University of Missouri (59 famílias) e Queen's University, em Kingston, Ontário, Canadá (99 famílias).

Na University of Missouri, as mães completaram questionários sobre seus filhos com transtorno do espectro autista e o período gestacional daquela criança. Elas foram questionadas sobre a ocorrência e gravidade subjetiva dos principais eventos estressantes durante ou dentro de um ano da gravidez. Foi fornecida uma lista de estressores comuns às participantes para ajudar a lembrar dos eventos.

Na Queens University, as mães completaram questionários sobre cada um de seus filhos, tanto aqueles com transtorno do espectro autista, bem como aqueles sem o transtorno. Elas foram questionadas se houve algum evento estressante durante a gestação de todas os filhos e, se sim, o que aconteceu, quando e por quanto tempo durante a gestação o evento durou. Elas não receberam uma lista de estressores comuns. A gravidade de cada estressor também foi registrada. 

Os tipos de estressores pesquisados foram psicossociais, como por exemplo, divórcio, uma mudança importante de domicílio, falecimento do cônjuge e mudança na saúde de um membro da família.

O número médio de estressores relatados foi 2,03 no banco de dados da University of Missouri e 0,45 no banco de dados da Queens University. A diferença, disse o Dr. Beversdorf, pode ser devido à metodologia; mais estressores foram identificados quando as participantes receberam uma lista de estressores comuns, em Missouri.

A coorte da University of Missouri teve maior proporção de participantes que eram homozigotos para o alelo curto (23,7%) em comparação com a coorte da Queen's University (13,1%). Não houve diferenças significativas na composição racial/étnica que pudesse explicar essa diferença.

Em pesquisa anterior do Dr. Beversdorf e sua equipe, o estresse prenatal esteve associado a risco aumentado de transtorno do espectro autista, especialmente durante o quinto e sexto mês de gestação. A análise atual revelou um número significativamente maior de estressores durante esse "período crítico" de gestação entre as pacientes que carreavam o alelo curto do transportador da serotonina tanto na coorte da University of Missouri (p = 0,043) quanto na da Queen's University (p = 0,017).

A gravidade dos estressores durante este período foi significativamente diferente entre os grupos na amostra da Queen's University (p = 0,021) com uma tendência observada no banco de dados da University of Missouri (p = 0,073). Em ambos os bancos de dados, os estressores durante a gestação foram mais graves em carreadores do alelo curto.

De acordo com o Dr. Beversdorf, isso sugere que os achados são "robustos" mesmo diante das metodologias ligeiramente diferentes e que "de qualquer forma que você avalie isso, existe algo interessante".

Os pesquisadores da Queen's University também obtiveram informações no período gestacional de 109 irmãos com desenvolvimento habitual. Mães não relataram exposição significante a estressores durantes essas gestações, independentemente do genótipo.

Isso, de acordo com o Dr. Beversdorf, sugere que "não é algum estranho epifenômeno" de mães com este alelo serem capazes de melhor lembrar os estressores. "Eles avaliaram irmãos não afetados e não encontraram nada; não houve aumento nos estressores, aumento da incidência, especificidade temporal, então isso significa algo específico para o autismo".

Das 99 crianças com transtorno do espectro autista no grupo da Queen's University, 50,5% eram primogênitos; dos 109 irmãos com desenvolvimento normal, 34,9% eram primogêmitos. A taxa aumentada de primogênitos no grupo com transtorno do espectro autista pode simplesmente ser devido a escolha das famílias de não ter mais crianças após ter uma com transtorno do espectro autista, disse o Dr. Beversdorf. 

Não havia informação disponível para dizer se a gravidade dos estressores estava associada à gravidade do espectro autista. "Nós não tínhamos dados de gravidade no estudo para avaliar isso", disse o Dr. Beversdorf. "Eu adoraria saber mais sobre isso em estudos futuros, uma vez que é uma pergunta importante".

É importante observar, no entanto, que uma análise post hoc em seu estudo original (J Autism Dev Dis. 2005;35:471-478) que investigou o impacto de estresse materno pré-natal no risco de transtorno do espectro autista (sem dados genético) mostrou que uma proporção maior de crianças com transtorno do espectro autista expostas ao estresse não desenvolveu a linguagem, em comparação com crianças com transtorno do espectro autista não expostas ao estresse.

Os pesquisadores estão começando a avaliar fatores biológicos, como o efeito do sistema imune e da expressão gênica, como biomarcadores potenciais em mães, disse o Dr. Beresdorf.

"Se houver alguma coisa fenotipicamente diferente sobre essas crianças afetadas que resulte dessa aparente etiologia, isso pode ter impacto no tratamento, mas nós ainda não temos nenhuma informação para seguir a investigação nesta linha".

Segunda amostra

O Medscape pediu ao Dr. Eric Hollander, diretor do Autism and Obsessive Compulsive Spectrum Program, e professor de psiquiatria clínica e ciências comportamentais do Albert Einstein College of Medicine e Montefiore Medical Center, em Nova York, para comentar o estudo.

Uma vantagem do estudo, disse o Dr. Hollander, é que ele teve uma segunda amostra independente.

"Eles coletaram duas amostras diferentes em dois lugares diferentes e observaram resultados semelhantes. Então, de certa forma, é uma repetição interna, e isso fortalece os resultados".

O estudo é "intrigante", mas o tamanho da amostra não é "imenso", disse o Dr. Hollander.

"Embora seja bom que eles tenham feito o estudo em dois lugares diferentes, também seria bom fazer o mesmo com amostras maiores".

Ele achou interessante que os autores tenham focado no momento em que os estressores ocorreram durante a gravidez. Eventos estressantes durante o 5º e 6º mês de gestação podem ter um impacto crítico no desenvolvimento de circuitos cerebrais e conexões sinápticas, disse o Dr. Hollander.

De acordo com o Dr. Hollander, o estresse materno pode aumentar o risco de que o bebê tenha vários tipos de transtornos, não apenas transtorno do espectro autista.

Também pode ser que outros fatores, além do estresse materno, aumentem o risco de transtorno do espectro autista. O Dr. Hollander destacou que os pesquisadores estão investigando inflamação materna.

Existe evidência, ele disse, de que exposição ao vírus da gripe durante a gravidez aumenta o riso de que a prole tenha transtorno do espectro autista. "Na verdade, alguns modelos animais mostram que se você expõe as mães à proteína do envelope do vírus – elas não estão na verdade apresentando uma infecção, apenas desencadeando uma resposta inflamatória – existe um risco aumentado nos bebês".  

A pesquisa foi financiada por Mizzou Advantage Initiative, University of Missouri College of Medicine Mission Enhancement Fund e Ongwanada Fund.

Fonte: Estresse materno durante a gravidez associado a autismo. Medscape.

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