0

Estudos clínicos com vacina contra o Zika em humanos estão próximos

11/07/2016 23:17 - Equipe Área do Médico

Pesquisadores chegaram mais perto de uma vacina contra o vírus Zika esse mês com o lançamento de um estudo fase 1 de uma vacina candidata e com relatos de ensaios bem-sucedidos em camundongos para duas outras.

Um estudo fase 1 foi aprovado recentemente pelo US Food and Drug Administration (FDA) para a GLS-5700, uma vacina de DNA sintético de plasmídeo desenvolvida pela companhia GeneOne Life Science Inc., em colaboração com a Inovio Pharmaceuticals. A Inovio é conhecida por ter levado uma candidata a vacina contra o Ebola da bancada para a prática clínica em cerca de 18 meses, atraindo US$ 45 milhões em apoio de desenvolvimento do US Defense Advanced Research Projects Agency.

Até o momento, nenhuma vacina de DNA foi aprovada para uso humano nos Estados Unidos, embora a vacina de DNA IMOJEV para encefalite japonesa tenha sido aprovada por autoridades regulatórias na Austrália e Tailândia.

O presidente e CEO da Inovio e J. Joseph Kim, disse ao Medscape que reduzir o tempo de desenvolvimento de vacina, que tipicamente se prolonga por 10 anos ou mais, foi possível porque a criação e produção de vacinas de DNA não necessita do longo tempo necessário para crescer e manipular o vírus ou vacinas de vírus inativado, e porque as empresas estavam dispostas a correr o risco financeiro de iniciar a produção da vacina de GLS-5700 em fevereiro, antes que os estudos em ratos e primatas tivessem terminado.

Kim disse: "Um artigo relatando nossos dados de ensaios pré-clínicos em ratos e macacos rhesus com a vacina GLS-5700 foi enviado para publicação, e os dados quanto a respostas de anticorpos e células T foram suficientemente convincentes para que o FDA garantisse uma exceção de nova droga experimental. Estamos orgulhosos de ter obtido aprovação para o primeiro estudo de vacina contra zika em voluntários humanos".

Ele continuou, "o estudo fase 1 de segurança é um estudo aberto para avaliar a segurança, tolerabilidade e imunogenicidade de duas doses de GLS-5700 em 40 pacientes. Nós temos aprovação do comitê de ética institucional em três locais de estudo na Filadélfia, Miami e Canadá, e esperamos começar a recrutar pacientes em aproximadamente uma semana, após resolver assuntos burocráticos".

Os pacientes receberão três doses de 1 ou 2 mg de GLS-5700, com doses separadas por um mês. Os desfechos primários são mudanças em medidas laboratoriais de segurança, incidência de eventos adversos, e incidência de eventos adversos graves. Os desfechos secundários são títulos de anticorpos ligantes contra o envelope do Zika, resposta de anticorpos neutralizantes contra o vírus Zika, e resposta de células T.

De acordo com Kim, os pesquisadores esperam completar o estudo fase 1 no último trimestre de 2016 e prosseguir para um estudo fase 2 se os dados do primeiro estudo forem favoráveis.

Ele enfatizou a importância de ser capaz de alcançar respostas imunes comparáveis com níveis associados com proteção efetiva contra a infecção pelo vírus Zika. "Nós não queremos ser os primeiros, mas com uma vacina ruim", ele disse, "e nós esperamos seguir para estudo de campo antes do final do ano, devido à necessidade urgente de uma vacina contra a doença".

A GLS-5700 é uma pequena sequência circular de DNA, chamada plasmídeo, que codifica proteínas de pré-membrana e envelope (prM-Env) do Zika.

Kim observou que, embora as vacinas de DNA tenham vantagens teóricas, como armazenamento fácil e boa estabilidade, existem desafios associados com a administração que precisam ser abordados.

"Os plasmídeos de DNA são grandes, e eles devem entrar na célula para serem efetivos. Injetá-los no músculo funciona com frequência em camundongos, mas muitas coisas funcionam em camundongos não funcionarão em humanos. Nós estamos tentando fazer com que os plasmídeos entrem nas células usando eletroporação com o sistema CELLETRA, no qual a vacina é administrada por via intradérmica e pulsos elétricos de baixa voltagem e que duram milissegundos são aplicados à pele para abrir poros celulares de forma reversa e permitir que a vacina entre. Nós usamos essa abordagem com mais de 1000 pacientes até o momento em nossos estudos de outras vacinas experimentais".

Duas outras vacinas experimentais protetoras em camundongos

Uma segunda vacina contra o vírus Zika foi uma de duas abordagens relatadas na edição de 28 de junho da Nature por Rafael A. Larocca, do Center for Virology and Vaccine ResearchBeth Israel Deaconess Medical CenterHarvard Medical School, em Boston, Massachusetts e colaboradores. A outra vacina candidata testada foi uma vacina de vírus purificado inativado (PIV) desenvolvida pelos coautores, Coronel Dr. Nelson L. Michael, diretor do US Military HIV Research Program‎ do Walter Reed Army Institute of Research (WRAIR) e Coronel Dr. Stephen J. Thomas, subcomandante do WRAIR e líder do programa para pesquisa em vacina contra o Zika.

Os pesquisadores testaram doses únicas de cada vacina em camundongos, os quais foram posteriormente expostos a isolados do vírus Zika do nordeste do Brasil ou de Porto Rico. Os isolados de Zika foram multiplicados em células Vero para gerar estoques para uso pré-clínico (ZIKV-BR and ZIKV-PR).

Assim como a GLS-5700, a vacina de DNA descrita por Larocca e colaboradores é um plasmídeo que codifica proteínas prM-Env do Zika da cepa brasileira BeH815744, bem como menores porções da proteína do envelope.

Os pesquisadores também testaram a imunogenicidade e eficácia protetora de uma vacina PIV do Zika derivada da cepa PRVABC59 de Porto Rico. Camundongos foram vacinados com 50 μg de vacina de DNA em salina sem adjuvante por via intramuscular ou com 1 μg de vacina PIV com 100 μg de adjuvante alúmen por via intramuscular ou subcutânea.

Uma dose de cada vacina protegeu 100% os camundongos contra infecção pelo vírus Zika, de acordo com dados apresentados no artigo e em uma entrevista coletiva no dia 27 de junho.

"Nós mostramos que as duas vacinas candidatas (uma vacina de DNA e uma vacina de vírus purificado inativado) forneceram proteção completa contra exposição ao vírus Zika em camundongos", disse o autor sênior Dr. Dan H. Barouch, professor de medicina na Harvard Medical School e diretor do Center for Virology and Vaccine Research no Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston.

A vacina de PIV contra o Zika deve começar ensaios fase 1 em outubro

O Dr. Michael disse ao Medscape que a vacina PIV contra Zika está sendo desenvolvia em colaboração com o National Institute of Allergy and Infectious Diseases, e que os ensaios fase 1 são esperados para outubro no WRAIR e em centros parceiros do National Institute of Allergy and Infectious Diseases. Uma colaboração com a indústria foi acertada, mas ainda não foi anunciada publicamente, ele continuou.

Os autores escrevem: "Nossos dados demonstram que uma única imunização com uma vacina de DNA ou uma vacina PIV forneceram proteção completa contra exposições parenterais ao ZIKV em camundongos. A vacina de DNA prM-Env forneceu proteção em três linhagens de camundongos e contra o ZIKV-BP e ZIKV-PR, sugerindo generalização dessas observações".

Estudos de imunogenicidade sugerem que a proteção com a vacina de DNA deriva de anticorpos Env específicos estimulados pela vacina. Por exemplo, os pesquisadores foram capazes de fornecer proteção a camundongos não-imunizados ao injetar anticorpos com imunoglobulina G purificada de camundongos vacinados. "Os estudos de transferência adotiva também definiram o limiar de títulos Env específicos necessários para proteção nesse modelo", eles escrevem.

Os autores concluem: "Tomados em conjunto, nossos achados fornecem significativo otimismo de que o desenvolvimento de uma vacina segura e efetiva contra o ZIKV para humanos provavelmente será plausível".

Vacina humana levará tempo, alerta especialista

O Dr.Peter Hotez, que não esteve envolvido no estudo, disse ao Medscape que os resultados em camundongos são impressionantes, mas podem não se reproduzir em humanos.

"O lado positivo é que parece um estudo sólido, bem controlado e cuidadosamente conduzido", disse o Dr. Hotez, diretor da National School of Tropical Medicine, e professor de pediatria e microbiologia molecular e virologia, Baylor College of Medicine, em Houston, Texas, e diretor doSabin Vaccine InstituteTexas Children's Hospital Center for Vaccine Development. "O lado negativo é que a maioria das vacinas de DNA protege camundongos, mas até o momento, elas não reproduzem essa imunidade protetora em humanos. Dessa forma, os resultados aqui podem levar a vacina para estudos fase 1, mas elas provavelmente não terão um impacto no desenvolvimento de uma vacina em humanos".

O Dr. Hotez disse que os dados sugerem que se a proteína prM puder ser produzida como uma proteína recombinante ao invés de uma vacina de DNA, em larga escala e associada a um adjuvante apropriado, ela poderia ser uma opção de vacina humana.

Ele também alertou contra esperar uma vacina clinicamente utilizável contra o Zika no futuro próximo. Ele disse que as candidatas a vacina provavelmente passarão rapidamente para estudos fase 1, mas a seguir o processo vai ficar mais lento ou até ser interrompido, porque o FDA vai querer evidência de que a vacina não induz à síndrome de Guillain-Barré e é segura na gestação, e esses estudos levarão anos.

"A mensagem é que isso não é o Ebola, e nós não teremos uma vacina contra o Zika pronta a tempo para esta epidemia", disse o Dr. Hotez.

O estudo foi financiado por Ragon Institute of Massachusetts General Hospital, Massachusetts Institute of Technology, e Harvard; National Institutes of Health; e a Fundação de Pesquisa de São Paulo (Fapesp).   J. Joseph Kim é presidente e chefe executivo de Inovio Pharmaceuticals. O Dr. Hotez não declarou relações financeiras relevantes.

Estudos clínicos com vacina contra o Zika em humanos estão próximos. Medscape

Leia também: Emergências oncológicas: Neutropenia Febril (NF)

Você pode se interessar por:

Minicurso: aprenda o passo a passo sobre abertura e fechamento do protocolo de morte encefálica

 

White icon 9a69e8f4e14534923dfbeae056bdb8e0921fc2fd3aeeed8bef94503484eb74c3

Equipe Área do Médico

Comentários