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Gota na prática clínica: qual a verdadeira importância da dieta?

26/01/2016 16:54 - Equipe Área do Médico

A Gota representa a doença articular inflamatória mais comum em homens adultos, principalmente dos 40 aos 50 anos de idade. Sua fisiopatologia envolve um estado de hiperuricemia, com deposição de cristais de ácido úrico nas articulações. Além disso, já é bem reconhecida sua associação com comorbidades como hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus e obesidade. Diversos estudos, derivados principalmente de coortes prospectivas, têm sugerido uma associação entre hábitos alimentares e o risco de desenvolver hiperuricemia e gota. Nesse sentido, a orientação dietética representa um dos aspectos fundamentais na prevenção do aparecimento de novas crises e tradicionalmente vinha sendo recomendada uma restrição dietética rigorosa, o que, na prática, conta com uma baixa adesão dos pacientes. Então, que medidas realmente têm benefício comprovado no tratamento desses pacientes?

Dieta: a dieta com restrição de purinas, o que inclui carnes vermelhas, frutos do mar e alguns tipos de grãos, é geralmente a primeira orientação que o médico dá ao paciente. Essa medida pode reduzir a excreção urinária de ácido úrico em 200 a 400 mg/dia mas o impacto nos níveis séricos é pequeno, com diminuição de até 1 mg/dL. Ou seja, além de ter uma baixa adesão do paciente, aqueles que seguem à risca essa recomendação apresentam um benefício relativamente pequeno. Além disso, um grande estudo americano não demonstrou risco aumentado de gota ou hiperuricemia com o consumo de alimentos ricos em purinas de origem vegetal, como aveia, ervilha, feijão, vagem, lentilhas, espinafre, cogumelos e couve-flor. Sendo assim, a recomendação é evitar principalmente vísceras e diminuir o consumo de frutos do mar e carnes vermelhas. Pacientes com sobrepeso são estimulados a seguir uma dieta com restrição calórica, com aumento proporcional de proteínas, substituição de carboidratos refinados por complexos e uma diminuição na gordura saturada.

Álcool: o consumo de bebidas alcoólicas tem sido relacionado ao aumento dos níveis séricos de ácido úrico e do risco de gota. Um dos mecanismos propostos seria através da elevação dos níveis de lactato, o que inibiria a excreção do ácido úrico no túbulo renal. Outro possível mecanismo consistiria no aumento da degradação de ATP, promovendo um aumento da degradação de purinas. Estudos mostraram que o risco é maior com cerveja do que com bebidas destiladas. Consumo diário de duas ou mais cervejas mais que dobrou o risco (RR= 2,5) e uma dose equivalente de aguardente aumentou o risco 1,6 vezes. Por outro lado, o consumo moderado de vinho (cerca de uma taça ao dia) não aumentou esse risco. Sendo assim, consumo excessivo de álcool (definido como mais de duas doses/dia para homens ou mais de uma dose/dia para mulheres) deve ser evitado por todos os pacientes com gota. Além disso, qualquer quantidade está contraindicada durante a crise aguda ou em pacientes com quadros crônicos e controle inadequado, sob o risco de prolongar a crise ou aumentar sua frequência.

Frutose: embora controversos, alguns estudos observacionais demonstraram uma relação entre alto consumo de frutose, sobretudo o xarope de milho (presente em bebidas como refrigerantes, sucos industrializados e energéticos), e o risco de desenvolvimento de gota em homens e mulheres. Um e studo publicado em 2008 demonstrou que homens que consumiam duas ou mais porções de refrigerantes por dia tinham uma chance 85% maior de desenvolver gota do que aqueles que bebiam menos de uma porção por mês. Esse risco não foi demonstrado com os refrigerantes dietéticos. Sendo assim, a recomendação mais recente do Colégio Americano de Reumatologia foi de orientar a diminuição do consumo de bebidas ricas em frutose.

Laticínios: estudos iniciais demonstraram diminuição dos níveis séricos de ácido úrico em associação com o consumo de proteínas do leite (caseína e lactalbumina), possivelmente por um efeito uricosúrico. Por esse motivo, existe a recomendação de incentivar o consumo de laticínios pobres em gordura.

Café: o consumo de café também parece diminuir o risco de gota. Inquérito populacional demonstrou que indivíduos que bebiam 4 a 5 xícaras de café por dia apresentaram um risco 40% menor de desenvolver gota em comparação com aqueles que não consumiam. Acredita-se que esse efeito seja independente da cafeína. Entretanto, tendo em vista possíveis efeitos prejudiciais do café sobre o risco de doença renal crônica e fraturas em mulheres, não existe uma recomendação formal quanto ao consumo em pacientes com gota.

Chá: estudos avaliando bebidas derivadas da planta Camellia sinensis (chá verde, chá branco, chá preto) mostraram resultados controversos. Enquanto um estudo com chá verde demonstrou um aumento dose-dependente da uricemia, outro estudo com chá preto evidenciou um efeito protetor. Tendo em vista a heterogeneidade dos estudos disponíveis, não é possível estabelecer conclusões definitivas até o momento.

Referências

Khanna D, Fitzgerald JD, Khanna PP, et al. 2012 American College of Rheumatology guidelines for management of gout. Part 1: systematic nonpharmacologic and pharmacologic therapeutic approaches to hyperuricemia. Arthritis Care Res (Hoboken). 2012 Oct;64(10):1431-46.

MacFarlane LA, Kim SC. Gout: a review of non modifiable and modifiable risk factors. Rheum Dis Clin North Am. 2014 Nov;40(4):581-604.

Towiwat P, Li ZG. The association of vitamin C, alcohol, coffee, tea, milk and yogurt with uric acid and gout. Int J Rheum Dis. 2015 Jun;18(5):495-501.

 

Andréa Dantas

Reumatologista

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