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Medicação pode aumentar o risco de arritmia infantojuvenil

06/07/2016 23:37 - Equipe Área do Médico

O estimulante metilfenidato, comumente usado para tratar o transtorno do déficit de atenção e/ou hiperatividade (TDAH), parece aumentar o risco de arritmias, particularmente entre crianças e jovens com cardiopatia congênita, revela uma nova pesquisa.

Pesquisadores da University of South Australia, em Adelaide, observaram que o metilfenidato aumenta o risco de arritmia em mais de 60%, e que este risco mais do que triplica entre os pacientes com cardiopatias congênitas.

A pesquisadora Nicole Pratt disse ao Medscape que embora estes eventos sejam raros, "pais e médicos devem estar cientes do potencial de efeitos adversos cardiológicos".

"Crianças que usam estes medicamentos devem ter a pressão arterial e a frequência cardíaca monitoradas para ajudar a mitigar o risco potencial. Os profissionais de saúde também precisam considerar a relação de risco-benefício para as crianças com história de doença cardíaca ou em uso de medicamentos que possam alterar o intervalo QT, particularmente quando os sintomas do TDAH forem leves", acrescentou.

A pesquisa foi publicada online em 31 de maio no British Medical Journal.

Generalizável?

A fim de explorar possíveis ligações entre o uso do metilfenidato em crianças e jovens e eventos cardiovasculares, os pesquisadores examinaram dados do banco de cobranças do seguro nacional de saúde da Coréia do Sul no período de 2008 a 2011.

Usaram para o estudo um desenho de casuística de casos autocontrolados, no qual identificaram todos os pacientes com 17 anos ou menos que haviam recebido pelo menos um diagnóstico de TDAH. Todos os pacientes estavam usando metilfenidato e tinham apresentado episódio de doença cardiovascular. Os eventos cardiovasculares definidos foram: arritmias, hipertensão, infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico isquêmico e insuficiência cardíaca.

A seguir, a equipe comparou a ocorrência de eventos cardiovasculares antes e após a exposição ao metilfenidato com as ocorrências durante a exposição de metilfenidato. Os períodos de risco foram classificados como sendo de um a três dias, quatro a sete dias, oito a 14 dias, 15 a 28, 29 a 56 dias e mais de 56 dias após o início do tratamento com metilfenidato.

Os pesquisadores identificaram 1.224 pacientes que sofreram algum evento cardiovascular. Esses eventos foram 864 casos de arritmia, 396 casos de hipertensão, 52 casos de infarto do miocárdio, 67 casos de acidente vascular encefálico isquêmico e 44 casos de insuficiência cardíaca.

A duração média de exposição ao metilfenidato foi de 0,5 ano para todos os eventos exceto insuficiência cardíaca, para a qual a duração média de exposição foi de 0,3 ano. A mediana da idade à primeira exposição foi de 11 a 13 anos. A mediana da idade ao primeiro evento foi de 11 a 13 anos.

Em todos os períodos de risco, houve aumento significativo do risco de arritmia, com uma relação da taxa de incidência ajustada de 1,61, subindo para 2,01 durante os três primeiros dias após a exposição inicial. O aumento do risco não foi mais significativo depois do 56º dia após o início do tratamento.

A análise de subgrupo revelou que o risco de arritmia foi maior entre os pacientes com cardiopatia congênita do que entre os sem doença cardíaca, com uma relação de taxa de incidência de 3,49 vs. 1,34.

Não houve aumento do risco de hipertensão, infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico ou insuficiência cardíaca associado à exposição ao metilfenidato. No entanto, houve aumento do risco de hipertensão do quarto ao sétimo dia após a exposição, e aumento do risco de infarto do miocárdio nos dias oito-14, 15-28, 29-56 após a exposição.

Nicole observou que a força do estudo foi o desenho direcionado a cada pessoa, "que efetivamente controla os fatores subjacentes que possam influenciar o resultado".

No entanto, ela reconheceu que os resultados podem não ser generalizáveis para outras populações de pacientes, e que podem existir fatores não analisados no estudo passíveis de modificar este risco.

"Vai ser importante replicar esses achados em outras populações e entender os fatores de risco que expõem as crianças a maior dano. Estas informações ajudarão os médicos e os pais a ponderar os riscos e os benefícios do tratamento, particularmente nos casos de TDAH leve", ela disse.

Evidências conflitantes

No editorial que acompanha o artigo, John W. Jackson, pesquisador do Departamento de Epidemiologia da Harvard T. H. Chan School of Public Health, em Boston, Massachusetts, observa que houve "evidências conflitantes" relativas à segurança cardíaca de estimulantes como o metilfenidato.

Ele ressalta que os resultados atuais estão em aparente desacordo com os recentes estudos de coorte usando os bancos de dados do seguros de saúde federais e privados dos Estados Unidos. Estes estudos não identificaram aumento das taxas de eventos cardiovasculares, independentemente dos pacientes terem ou não doença cardiovascular preexistente.

Contudo, o pesquisador notou que isto reflete as diferenças entre as populações estudadas, e que a população atual tinha maior risco de eventos cardiovasculares ao início do estudo.

Falando ao Medscape, ele explicou que é tanto uma questão de "quem" quanto de "quando".

"O estudo atual está realmente examinando uma população de alto risco, e parece que o início do tratamento é o período de maior risco, que nos causa mais preocupação". Ele observou que as evidências deste estudo referem-se aos pacientes com alto risco de doença cardiovascular "porque esta foi a população que este desenho de estudo selecionou" disse ele.

Ele disse que este estudo "ressalta a necessidade de considerar a gravidade dos sintomas de TDAH e a opção de não usar estimulantes para as crianças que apresentam alto risco cardiovascular, evitar utilizações não previstas na bula do medicamento e acompanhar os pacientes para os quais o uso de estimulantes é essencial ao seu bem-estar e ao desenvolvimento".

Esta pesquisa não recebeu nenhum financiamento. Dois coautores do estudo receberam suporte por meio de bolsas do National Health and Medical Research Council.

BMJ. Publicado online em 31 de maio de 2016. ArtigoEditorial

Fonte: Medicação pode aumentar o risco de arritmia infantojuvenil. Medscape.

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Equipe Área do Médico

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