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Mesmo jovens com IMC ‘normal’ têm maiores taxas de morte cardiovascular na meia-idade

22/04/2016 22:18 - Equipe Área do Médico

RAMAT GAN, ISRAEL — Um grande estudo de base populacional sugeriu que o risco de morte cardiovascular na meia-idade é significativamente maior para adolescentes com IMC ainda considerado nos limites da normalidade, bem como para aqueles com sobrepeso ou obesos.

O risco de mortalidade cardiovascular aumentou com o IMC de forma gradativa, com o aumento começando naqueles com IMC normal.

De acordo com o artigo publicado online 13 de abril de 2016 no New England Journal of Medicine, os dados indicam que o sobrepeso e a obesidade na adolescência podem ser responsáveis por um quinto das mortes cardiovasculares e um quarto das mortes por doença coronariana quando os pacientes atingem a meia idade.

“O fato de que até um quarto da mortalidade por doença coronariana pode ser atribuído ao que acontece na adolescência enfatiza que nós devemos considerar este desfecho clínico muito antes da idade de 17 anos,” o autor do estudo Dr. Gilad Twig (Sheba Medical Center, Tel Hashomer, em Ramat Gan, Israel) disse ao Medscape.

Em entrevista, Dr. Carl Lavie (John Ochsner Heart and Vascular Institute, em Nova Orleans, Louisiana) afirmou que o estudo tem suas limitações, mas é uma “alerta” para Israel e ainda mais preocupante para os Estados Unidos, onde IMCs acima de 40 atingem quase 5% da população.

O Dr. Lavie destacou que esses indivíduos na meia idade provavelmente eram mais ativos fisicamente que os adolescentes sedentários americanos atuais, que realizam atividades físicas apenas quando participam em esportes organizados. Assim se você avançar para o presente onde as crianças já são obesas, será uma bomba relógio o que vai acontecer com essas pessoas daqui a 20 ou 30 anos”, ele disse.

O estudo avaliou medidas de IMC realizadas de 1967 até 2010 em 2,3 milhões de homens e mulheres israelenses com idade entre 16 e 19 anos que foram acompanhados até a morte ou até 30 de junho de 2011, o que acontecesse antes.

Na análise multivariada, os participantes que eram obesos na adolescência (índice de massa corporal acima do percentil 95) tiveram um risco significativamente maior em comparação com um grupo de referência (IMC no percentil 5 ao 24) para morte por doença coronariana (hazard ratio [HR] 4,9, IC de 95% 3,9–6,1), acidente vascular encefálico (HR 2,6, IC 1,7–4,1), morte súbita (HR 2,1, IC 1,5–2,9) e morte por causas cardiovasculares totais (HR 3,5, IC 2,9–4,1), após ajuste para sexo, idade, ano de nascimento, situação socioeconômica e a altura.

Para aqueles com IMCs na adolescência na faixa normal (percentil 50 a 74), o risco também esteve significativamente aumentado para morte por doenças cardiovasculares (HR 1,5; IC 1,3–1,8) e morte por causas cardiovasculares totais (HR 1,3, IC 1,2–1,5). A mortalidade por todas as causas também esteve aumentada para participantes obesos e com IMC dentro dos limites da normalidade.

Os autores realizaram extensas análises de sensibilidade que preencheram 40 páginas de texto suplementar, mas a associação entre IMC na adolescência e risco posterior permaneceu estável e robusto, disse o Dr. Twig, acrescentando: “Nada realmente alterou a associação”.

O que está faltando?

O Dr. Abhishek Sharma (State University of New York Downstate Medical Center, no Brooklyn, Nova York) disse que o achado de risco aumentado com a obesidade adolescente não é surpreendente, mas o que é único aqui é que o grande tamanho da amostra forneceu a força estatística para avaliar o risco nos quartis de peso normal. No entanto, ele questionou a capacidade de generalização dos resultados para adolescentes americanos, e como o Dr. Lavie destacou que o estudo usou apenas IMC para avaliar o peso e não levou em conta a forma física, estilo de vida, tabagismo e, mais importante, o IMC adulto.

O Dr. Sharma disse que “quando adolescentes obesos perdem peso seus desfechos cardiovasculares melhoram com o tempo, mas este estudo não levou em conta o IMC ao longo do tempo do seguimento, e esta é uma preocupação principal do meu ponto de vista”.

O Dr. Twig destacou que a população de Israel é muito diversificada e que não houve interação com etnia na análise. O autor também acredita que acrescentar o tabagismo provavelmente não altera a associação porque não houve alteração significativa entre os modelos bruto e ajustado, que explicaram fatores sabidamente relacionados ao tabagismo como etnia, educação e situação socioeconômica.

Finalmente, os dados foram analisados usando IMC como uma variável contínua, como realizado em um “trabalho monumental” pela Dra. Jennifer Baker (Institute of Preventive Medicine, em Copenhagen, na Dinamarca) e colaboradores, e novamente a associação permaneceu.

A Dra. Jennifer disse: “Quando se comparam os resultados desses tipos de estudo, é importante avaliar se as associações apontam para a mesma direção – e elas apontam. Resultados do nosso trabalho e os do Dr. Twig mostram que IMC alto na infância e na adolescência aumentam as chances de morte de doença cardiovascular”.

O Dr. Twig concordou que a ausência de aferição do IMC na meia-idade é uma limitação mas afirmou que estudos sugerem que o IMC na adolescência é capaz de predizer esta medida na vida adulta e que ela aumenta de forma independente dos fatores de risco para obesidade e aterosclerose coronariana. “Eu gostaria que tivéssemos dados porque seria muito, muito mais fácil para apontar exatamente onde nós precisamos intervir e quais são exatamente as vias, mas com os dados que atualmente temos, apontamos para a idade na qual fizemos nossa avaliação, que é 17”, ele disse.

A Dra. Jennifer comentou, “Do ponto de vista da prevenção, a ausência de informações sobre o IMC na vida adulta não é uma limitação”.

O IMC “normal” é muito alto? 

O Dr. Twig disse que o estudo é importante para a saúde pública e que ele espera que ele inicie discussões e estudos adicionais avaliando outros desfechos como hipertensão para verificar se é certo usar um intervalo tão grande para definir IMC normal.

“Eu não tenho certeza se um único estudo deva mudar o limite do que definimos como normal ou anormal, mas eu penso que deve definitivamente chamar atenção, e estudos adicionais devem avaliar em que valor definir o limite”, ele disse.

A Dra. Jennifer afirmou que seus próprios estudos também estão mostrando que os riscos aparecem em valores de IMC abaixo daqueles que atualmente são classificados como sobrepeso ou obesidade. Ela acrescentou: “A medida que mais estudos sejam feitos sobre um maior espectro de doenças, pode ser necessário repensar como o sobrepeso e obesidade na infância devem ser definidos”.   

O Dr. Lavie afirmou que é sensato, mas questionou como isso funcionaria na prática.

“Se você muda o ideal, então em algum ponto você deve começar a recomendar dietas e programas de perda de peso, e eu não acho que isso pode acontecer na rotina pediátrica – que eles vão começar a recomendar perda de peso para pacientes com 13 e 14 anos de idade que estão acima da média”.

O Dr. Lavine disse que faz sentido para os clínicos promover prevenção do ganho de peso e melhor escolha dietética, mas que a resposta real é fazer as pessoas se mexerem. “Temos vários artigos que mostram que a causa fundamental da obesidade e ganho de peso ao longo das últimas cinco décadas é o declínio dramático que ocorreu na realização de atividades físicas”.

O estudo foi financiado por uma bolsa de pesquisa do Environment and Health Fund em Jerusalém. O Dr. Twig relata ser membro do Dr Pinchas Bornstein Talpiot Medical Leadership Program, no Sheba Medical Center. Conflitos de interesses dos co-autores estão listados no website do periódico . O Dr. Lavie é o autor do livro “O Paradoxo da Obesidade” e já palestrou sobre forma física para Coca-Cola. O Dr. Sharma e a Dra. Jennifer não relatam relações financeiras relevantes.       

Fonte: Mesmo jovens com IMC ‘normal’ têm maiores taxas de morte cardiovascular na meia-idade. Medscape. 21 de abril de 2016.

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