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Rastreando as complicações decorrentes da infecção pelo vírus Zika

20/06/2016 20:30 - Equipe Área do Médico

Uma nova revisão analisa o que se sabe atualmente sobre o vírus Zika, particularmente as consequências neuroimunológicas da epidemia, que parecem ser um fenômeno novo associado com infecção.

A recente explosão do número de casos notificados no Brasil e, a seguir, no resto da América do Sul, tem sido acompanhada de complicações neurológicas, como síndrome de Guillain-Barré e microcefalia em crianças nascidas de mulheres infectadas durante a gestação.

O novo artigo, publicado online no JAMA Neurology em 16 de maio pelo Dr. J. David Beckham, médico do Grupo de Doenças Infecciosas com Comprometimento Neurológico do Departamento de Neurologia da University of Colorado School of Medicine, Aurora, e colaboradores, estabelece o cronograma da epidemia do vírus Zika. Os autores lembram que embora o primeiro caso de infecção por este vírus tenha sido registrado em 1947, foi apenas em 2007 que seu potencial epidêmico foi constatado em um surto na Micronésia.

Esse episódio teve 59 casos prováveis e 49 casos confirmados. Curiosamente, não foram identificadas complicações entre os casos naquela época, nem complicações neurológicas ou fetais.

Desde então, o vírus se propagou pelo Pacífico, com a epidemia na Polinésia Francesa em 2013, e para Brasil em 2015. No surto de 2013 começaram a ser registrados casos de síndrome de Guillain-Barré, aparentemente associada ao vírus Zika. Na epidemia brasileira apareceram relatos de outras complicações ligadas à infecção, como microcefalia e até mesmo morte.

O Dr. Daniel M. Pastula, coautor, neurologista e epidemiologista da University of Colorado, em Denver, disse que não está claro se o aumento do número de complicações associadas ao vírus Zika deve-se a uma alteração do próprio vírus ou se é simplesmente pelo fato de haver um número muito maior de casos, fazendo com que complicações raras se tornem mais evidentes.

"Esta é a primeira vez, nos últimos um ou dois anos, que o vírus Zika se espalhou para milhares e milhares de pessoas em toda a América do Sul, América Central, México e Caribe, assim como em outros lugares no Pacífico", disse o Dr. Pastula.

"Dado que muitas outras pessoas estão sendo atingidas, podemos estar testemunhando apenas a emergência de uma complicação de baixíssima incidência, que não pudemos ver quando somente poucas pessoas foram infectadas".

O Dr. John D. England, médico, professor de neurologia e diretor do Departamento de Neurologia da Louisiana State University School, em Nova Orleans, preside o Grupo de Trabalho sobre Zika daWorld Federation of Neurology (WFN).

O Dr. England, que não participou desta revisão, disse ao Medscape que a explosão de casos de Zika em 2013 na Polinésia Francesa e sua subsequente propagação para a América do Sul sugere que, em sua opinião, "algo aconteceu com este vírus que o tornou mais facilmente transmissível pelos mosquitos aos seres humanos, nos quais provavelmente está causando mais complicações".

 

"Há sempre um problema epidemiológico em termos de apuração do caso, porque as pessoas se perguntam, bem, pode já ter havido casos anteriores e como não foram informados, ou foram menos graves, simplesmente não estavam sendo notificados"? acrescentou. "Mas isso parece menos provável do que algo sobre o vírus ter mudado tornando-o mais neurotrópico e mais facilmente transmissível para os seres humanos".

Isso pode ser corroborado pela evolução genômica do vírus. Como observam o Dr. Beckham e colaboradores no seu artigo, o vírus Zika sofreu 13 recombinações desde o seu surgimento, o que eles descrevem como "característica incomum entre os F lavivirus". 

Esta "plasticidade evolutiva" do genoma viral do Zika pode ter contribuído para a sua adaptação a ambientes específicos e resultado na sua maior frequência de atividade, a cada um a dois anos, em comparação à periodicidade de cinco a oito anos do vírus da dengue e da febre amarela.

 

No entanto, é necessário pesquisar muito porque, como informam os pesquisadores, "muito pouco se sabe atualmente sobre a biologia e patogenia do vírus Zika", e os modelos de cultura de células e os modelos murinos "não foram bem estabelecidos".

Diretrizes para os casos de complicações neurológicas pelo vírus Zika

A WFN anunciou em 20 de maio que, após uma reunião recente sobre as implicações do vírus Zika na saúde pública, o grupo irá elaborar diretrizes formais traçando os critérios diagnósticos das complicações neurológicas da infecção.

Dr. England explicou ao Medscape que a WFN tem "trabalhado em estreita colaboração" com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) em vários conjuntos de diretrizes, em especial aquelas para os casos de síndrome de Guillain-Barré, que "precisamos refinar à medida que novas informações são divulgadas sobre os tipos de problemas que podem surgir".

 

No entanto, ele observou que o espectro de complicações congênitas associadas ao vírus Zika "está evoluindo e vamos precisar das diretrizes mais atualizadas" para diagnosticar as complicações neurológicas.

"Temos um grupo de trabalho com vários especialistas de todo o mundo, neurologistas clínicos, neurologistas pediátricos, virologistas, epidemiologistas, especialistas em saúde pública e especialistas em doenças infecciosas com comprometimento neurológico", disse ele.

A partir do Second Congress of the European Academyrealizado em Copenhague de 28 a 31 de maio, o grupo de trabalho vai começar a reunir as diretrizes, junto com a Organização Mundial da Saúde.

 

"Não precisamos duplicar as coisas, precisamos trabalhar juntos e deixar a comunidade neurológica em particular, bem como outros profissionais de saúde, compreenderem qual é a definição de caso desses problemas", disse o Dr. England.

"Chave" da prevenção

Nesse meio tempo, prevenir as picadas do mosquito é a chave para deter a propagação do vírus e a ameaça de complicações neurológicas, alertam os pesquisadores, destacando a falta de conhecimento atual sobre a sua biologia e patogenia.

Além disso, atualmente não existe tratamento para a infecção pelo vírus Zika, e como "não temos certeza sobre todas as suas apresentações clínicas", disse o Dr. Pastula, “a prevenção das infecções através da prevenção das picadas do mosquito ‘é a chave’".

 

"As pessoas, quando viajam para as áreas endêmicas do vírus Zika, devem usar repelentes quando saírem ao ar livre, usar mangas compridas e calças sempre que possível, e usar telas na janela e ar condicionado quando estiverem em ambientes fechados a fim de manter os mosquitos do lado de fora", disse.

Ele acrescentou que "se alguém tiver algum problema ou questão sobre vírus Zika, deve procurar seu médico, que pode então trabalhar com os departamentos de saúde locais e estaduais, conforme necessário".

Ele também observou que o Centers for Disease Control and Prevention emitiu um alerta dizendo que as gestantes devem evitar as áreas endêmicas do vírus Zika e que as informações mais atualizadas podem ser encontradas na sua página da web sobre o vírus Zika.

Um dos focos de atividade da pesquisa é criar uma vacina contra o vírus Zika. O Dr. England informou que existem somente duas cepas do vírus, a africana e a asiática, e que é esta última que está provocando a maioria dos casos. 

Fundamentalmente, há apenas uma pequena diferença genética entre as duas variedades do vírus.

"O que eu entendo em relação à vacina é que esta irá proteger contra todas as cepas do vírus Zika", disse o Dr. England. "Não é como o vírus da dengue, que tem quatro sorotipos completamente diferentes e quando estavam desenvolvendo a vacina contra a dengue foi necessário chegar a uma que agisse contra os quatro sorotipos. O desenvolvimento desta vacina vai ser mais rápido".

Contudo, a vacina ainda não existe e, portanto, a principal estratégia para deter a propagação do vírus é através da prevenção das picadas do mosquito. Atualmente não há casos de infecção pelo vírus Zika no continente norte-americano, e o Dr. Pastula acredita que isso pode permanecer assim como está, embora as duas espécies de mosquitos vetores do vírus vivam em partes dos Estados Unidos.

Ele disse que "nos Estados Unidos, como vivemos normalmente com telas nas janelas e ar condicionado, e os nossos departamentos de saúde local e estadual têm um bom controle dos vetores, seria possível vermos transmissão local do vírus Zika através de mosquitos, mas eventuais surtos tenderiam a ser localizados e de curta duração".

O Dr. England está preocupado, no entanto, que mesmo com essas medidas não seja possível conter a progressão do vírus. Foram relatados casos em 60 países ou territórios, 46 dos quais notificaram o seu primeiro surto a partir de 2015. Além disso, há relato de transmissão sexual em 10 países.

"O vírus continua se espalhando, estamos preocupados com a chegada do verão, que as áreas subtropicais, mesmo no continente norte-americano e, talvez até, embora menos provável, no sul da Europa... possam ter este problema", disse ele.

"E, naturalmente, teremos os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em agosto, de modo que muitos profissionais da saúde pública estão preocupados com o fato de que se 500.000 pessoas foram para o Rio, algumas provavelmente terão Zika e depois irão voltar para suas casas em diferentes partes do mundo", acrescentou.

Fonte: Rastreando as complicações decorrentes da infecção pelo vírus Zika. Medscape

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Equipe Área do Médico

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