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Sem confusão: o álcool causa sete tipos de câncer

08/08/2016 23:18 - Equipe Área do Médico

Existe forte evidência de que o álcool causa sete tipos de câncer e outras evidências indicam que ele provavelmente também é a causa de mais outros, de acordo com uma nova revisão de literaturapublicada online em 21 julho no periódico Addiction. 

Evidências epidemiológicas fornecem suporte a uma associação causal entre o consumo de álcool e tumores de orofaringe, laringe, esôfago, fígado, cólon, reto e mama feminina, afirma a Dra. Jennie Connor, do Departamento de Medicina Social e Preventiva, University of Otago, em Dunegin, Nova Zelândia.

Resumindo, o álcool causa câncer.

Isso não é novidade, diz a Dra. Jennie. A International Agency for Research on Cancer (IARC) e outras instituições já identificaram associação causal entre o álcool e esses sete tipos de câncer há tempos.

Então por que a Dra. Jennie, que é epidemiologista e médica, escreveu uma nova revisão? Porque ela quer "esclarecer o quão forte é a evidência" de uma "forma acessível".  

Existe confusão sobre a afirmação de que "álcool causa câncer", afirma a Dra. Jennie. 

As discussões públicas e científicas sobre álcool e câncer alteraram a verdade sobre causalidade, ela sugere.

"Para o público e a mídia, afirmações feitas por especialistas mundiais recebem o mesmo crédito que as mensagens passadas pelas empresas que produzem bebidas e seus cientistas. No geral, as mensagens ficam pouco claras. Por essas razões, o periódico Addiction rotulou este artigo como 'Para debate'", ela disse ao Medscape.

O uso de linguagem causal em discussões científicas e públicas é desigual, ela escreve.

Por exemplo, artigos e notícias de jornais com frequência usam expressões como "câncer relacionado ao álcool" e "câncer atribuível ao álcool"; eles se referem a uma "associação" entre álcool e câncer e ao efeito do álcool no "risco de câncer".

O uso dessas palavras "incorpora uma associação causal implícita, mas é facilmente interpretado como algo mais brando do que câncer sendo causado por beber", observa a Dra. Jennie.

"Pare de ingerir álcool" é um slogan que poderia ser, mas não é, semelhante a "pare de fumar", ela também sugere.

"Atualmente, o papel causal do álcool é entendido como mais complexo que o do tabaco e a solução sugerida pela analogia com o tabagismo – que todos nós devemos reduzir e eventualmente parar de ingerir álcool – é amplamente inaceitável", escreve a Dra. Jennie. 

A revisão recentemente publicada "reforça a necessidade de informar o público sobre a associação causal entre álcool e câncer", disse Colin Shevills, da Alcohol Health Alliance UK, em uma declaração à imprensa.

"Pesquisas mostram que apenas uma em 10 pessoas no Reino Unido está ciente da associação entre álcool e câncer", disse ele.

"As pessoas têm o direito de saber o impacto do álcool na própria saúde, incluindo a associação dele com câncer, para poderem tomar decisões informadas sobre o quanto bebem", acrescentou Shevills.

A falta de clareza sobre a associação causal entre álcool e câncer, acredita a Dra. Jennie, está relacionada à propaganda da indústria de bebidas e ao fato de que a "base epidemiológica para inferência causal é um processo iterativo, que nunca está totalmente completo".

A  Dra. Jennie escreve que a força da associação do álcool como uma causa de câncer varia em relação à localização da lesão. A evidência é "particularmente forte" para tumores da cavidade oral, faringe e esôfago (risco relativo, ~4-7 por ≥50 g/dia de álcool em comparação a não beber) mas é menor para tumor colorretal, hepático e da mama feminina (risco relativo ~1,5 para ≥50 g/dia).

"Para tumores da cavidade oral, faringe, laringe e esôfago existe uma interação bem reconhecida do álcool com o tabagismo, resultando em um efeito multiplicativo no risco", acrescenta a Dra. Jennie.

Outros cânceres também são provavelmente causados por álcool. A Dra. Jennie escreve que há "cada vez mais pesquisas" fornecendo suporte para uma contribuição causal do álcool no câncer de pâncreas, próstata e pele (melanoma).

Os mecanismos exatos de como o álcool, isoladamente ou em combinação com o tabagismo, causa câncer "não são totalmente compreendidos", embora existam "evidências biológicas", diz ela.

Uma especialista britânica deu opinou sobre a carcinogenicidade do álcool. 

Em uma declaração sobre a nova revisão, a professora Dorothy Bennett, diretora do Molecular and Clinical Sciences Research Institute at St. George's, da University of London, disse: "O álcool entra muito facilmente nas células e é em sequência convertido em acetaldeído, o que pode danificar o DNA e é um conhecido carcinógeno".

Na nova revisão, a Dra. Jennie descreve várias marcas de causalidade observadas em estudos epidemiológicos com álcool e esses sete tipos de câncer, como relação dose resposta e o fato de que o risco para alguns desses tumores (esôfago, cabeça e pescoço e fígado) diminui com a cessação do consumo.

Estimativas atuais sugerem que os tumores atribuíveis ao álcool nestes sete sítios correspondem a 5,8% de todas as mortes mundiais por câncer, ela afirma. 

A indústria de bebidas tem muito a perder, ela diz, o que por sua vez leva à "desinformação" que "enfraquece os resultados de pesquisas e contradiz orientações de saúde pública baseadas em evidências". 

Um exemplo recente vem da Nova Zelândia, onde um simpósio sobre álcool e câncer teve cobertura da mídia nacional. Um artigo de opinião escrito por um cientista financiado pela indústria no jornal diário da capital contestou a evidência relatada na conferência. O ensaio tinha como título: "Dizer que o uso moderado de álcool causa câncer é errado". 

O ensaio incluía a declaração: "Enquanto o consumo abusivo crônico de álcool está associado com vários problemas de saúde incluindo câncer, atribuir o câncer ao consumo social moderado é simplesmente incorreto e não tem o suporte da literatura científica".

Mas não existe nível seguro de álcool quando se trata de câncer, diz a Dra. Jennie, citando pesquisa sobre níveis baixos a moderados de álcool, que teve cobertura do Medscape.

Esta também foi a conclusão do 2014 World Cancer Report, publicado pela agência IARC, da Organização Mundial de Saúde.

A promoção de benefícios à saúde do consumo moderado de álcool está sendo "vista cada vez mais como falsa ou irrelevante em relação ao aumento no risco de vários cânceres", escreve a Dra. Jennie.

Campanhas de saúde pública "com mensagens claras" são necessárias para divulgar ao mundo a carcinogenicidade do álcool, ela disse ao Medscape.

"Eu acho que o Reino Unido está na liderança. Lá o consumo de álcool como questão de saúde pública vem tendo grande exposição há alguns anos", disse a Dra. Jennie, que forneceu links para duas campanhas de conscientização, a campanha Balance, e a campanha Balance Northeast.

No início do ano, o Reino Unido publicou novas diretrizes sobre o consumo de álcool, recomendando que homens não bebam mais que as mulheres e alertando que qualquer quantidade de álcool aumenta o risco de desenvolvimento de vários tipos de câncer.

Organizações na Nova Zelândia também estão entrando em ação. A New Zealand Medical Association, a Cancer Society of New Zealand, e a National Heart Foundation adotaram posições baseadas em evidências que "desmascaram" os benefícios cardiovasculares como uma motivação para beber e que reforçam os riscos de câncer, disse a Dra. Jennie.

Dra. Jennie declarou não possuir conflitos de interesses relevantes.

Fonte: Sem confusão: o álcool causa sete tipos de câncer. Medscape.

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