0

Sucesso com o uso do pâncreas artificial durante a gestação no diabetes tipo 1

03/05/2016 21:41 - Equipe Área do Médico

O primeiro estudo a examinar o uso de um sistema fechado de liberação de insulina - o chamado “pâncreas artificial” - em regime ambulatorial para gestantes com diabetes tipo 1 mostrou algum sucesso, reduzindo a hiperglicemia em cerca de 25%.

Embora o uso desta abordagem em sistema fechado seja cada vez mais comum - utilizando uma bomba de insulina e um monitor contínuo de glicose (MCG) junto com um algoritmo em um dispositivo tipo iPad - entre diferentes grupos de pacientes com diabetes tipo 1, até hoje havia poucas evidências que justificassem seu uso de rotina na gestação, disse a Dra. Zoe Stewart, doutoranda no Institute of Metabolic Science, University of Cambridge, United Kingdom, na Diabetes UK  2016 Professional Conference.

Entretanto, o grupo de pesquisa da sua instituição já demonstrou que o pâncreas artificial controla com eficácia a glicemia nas pacientes com diabetes tipo 1, tanto no início quanto no final da gestação, "sob rígido controle em pacientes internadas", observou ela.

Este novo pequeno estudo de viabilidade foi feito para determinar o impacto da liberação contínua de insulina em um contexto de vida real, na casa dessas pacientes.

O melhor indicador de sucesso do estudo foi o fato de, depois do seu término, 14 das 16 mulheres estudadas terem optado por continuar usando o pâncreas artificial 24 horas por dia, 7 dias por semana, inclusive durante o puerpério, sem nenhum problema, ela destacou.

O uso domiciliar do sistema fechado de liberação de insulina à noite parece ser seguro e eficaz na gestação; pode reduzir a hiperglicemia em cerca de 25%, sem aumentar a incidência de hipoglicemia, nem o escalonamento da dose da insulina, disse a Dr. Zoe.

Estes resultados estão em conformidade com os resultados obtidos em estudos com crianças, adolescentes e adultos, segundo a doutora, e corroboram a necessidade de mais e maiores ensaios clínicos de 24 horas a fim de avaliar os benefícios clínicos do sistema fechado de liberação de insulina para as gestantes com diabetes tipo 1.

A gestação traz mais riscos para as mulheres com diabetes tipo 1

A gestação traz maior riscos para as mulheres com diabetes tipo 1, visto que as alterações hormonais dificultam a manutenção da glicemia num patamar seguro, especialmente durante a noite. Em consequência da hiperglicemia, os bebês das mulheres com diabetes têm probabilidade cinco vezes maior de nascerem mortos, três vezes maior de óbito durante os primeiros meses da vida, e duas vezes maior ter alguma anomalia congênita importante. A hipoglicemia na gestação também é uma causa significativa de mortalidade materna.

E estes resultados aquém do ideal para as gestantes com diabetes tipo 1 e seus bebês permaneceram relativamente inalterados durante a década passada, explicou a Dra. Zoe.

No seu estudo, 16 mulheres com idades entre 16 e 44 anos e história de diabetes tipo 1 há 23 anos, em média, e com oito a 20 semanas de gestação, foram randomizadas - depois de uma fase introdutória de duas a quatro semanas de treinamento - para a terapia com bomba de insulina sensibilizada por sensor ou à terapia com bomba de insulina sensibilizada por sensor com o acréscimo de um monitor contínuo de glicose (MCG) para criar a liberação noturna (de 23:00 h  às 07:00 h), durante 28 noites.

Após o que, houve um período de duas semanas de desmame, com o grupo desse braço completando o braço oposto da intervenção; ao término do estudo, as mulheres puderam optar pelo seu sistema preferido durante o restante de sua gestação.

A Dra. Zoe observou que entre as mulheres randomizadas, algumas só tinham usado múltiplas injeções diárias (MID) de insulina antes do estudo, e não tinham nenhuma experiência com a bomba da insulina.

"Isso fez com que este estudo fosse o primeiro a passar direto de um esquema MID para o sistema fechado de liberação", ela disse, acrescentando que, e isso é importante, não houve nenhuma diferença de resultados entre estas mulheres e as que já tinham usado bomba da insulina.

O sistema de liberação fechado é seguro em vários cenários durante a gestação

Os resultados mostraram que as mulheres do braço do pâncreas artificial tiveram 25% de melhora relativa do percentual de tempo com níveis adequados da glicemia noturna (de 3,5 a 7,8 mmol/L) – 59,5% [das participantes] no braço da bomba de insulina isoladamente vs. 74,7%  das participantes]no braço do sistema fechado de liberação (P = 0,002).

A redução média da glicemia noturna foi de 0,8 mmol/L no braço do sistema fechado vs. o braço da bomba isolada (P = 0,009), e houve uma redução pela metade correspondente do tempo de hiperglicemia (glicemia > 10 mmol/L) no grupo do sistema fechado, traduzido num acréscimo de duas horas a mais por dia de glicemia dentro dos parâmetros desejados.

Não houve diferenças entre os braços em termos de dose diária de insulina, nem do número de episódios de hipoglicemia.

Embora não tenha havido nenhuma diferença significativa da HbA1c entre os dois grupos neste estudo, se estes efeitos se mantiverem a longo prazo, "podemos esperar que estejam associados a redução dos níveis da HbA1c de aproximadamente 0,5" com o sistema fechado, disse a Dra. Zoe para o público do congresso em Glasgow.

A natureza desse estudo significou que o pâncreas artificial também foi testado em uma gama de situações geralmente associadas à gestação, particularmente entre as gestantes com diabetes tipo 1. Isso incluiu internação hospitalar, administração de corticoides antes do parto para a maturação do pulmão do feto, e trabalho de parto/parto em diversas situações, incluindo parto vaginal e cesáreo, eletivo ou de emergência.

Em média os partos ocorreram com 37 semanas de gestação; 15 das 16 gestantes fizeram cesariana e 100% dos bebês nasceram saudáveis.

E como o sistema fechado também foi testado no puerpério, 24 h por dia/7 dias por semana, com doses extras de insulina em bolus às refeições conforme necessário, a equipe demonstrou que "o sistema se ajustou rapidamente à brusca queda da necessidade de insulina após o parto”, observou a Dra. Stewart.

Por fim, embora ainda hajam questões com a tecnologia que precisam ser aprimoradas, em termos de calibração e da conectividade, e o objetivo seja colocar o algoritmo em um smartphone em vez de um iPad, em última instância este sistema poderia ser amplamente generalizável, porque "não exige muitas inserções de dados pela paciente ou pela equipe de especialistas, disse ela.

Sua equipe está fazendo agora um novo ensaio clínico comparando o uso do sistema fechado ao uso da bomba de insulina 24 h por dia/7 dias por semana em mais 16 gestantes com diabetes tipo 1.

Fonte: Sucesso com o uso do pâncreas artificial durante a gestação no diabetes tipo 1. Portal Medscape.

Leia também: Emergências oncológicas: Neutropenia Febril (NF)

Você pode se interessar por:

Minicurso: aprenda o passo a passo sobre abertura e fechamento do protocolo de morte encefálica

White icon 9a69e8f4e14534923dfbeae056bdb8e0921fc2fd3aeeed8bef94503484eb74c3

Equipe Área do Médico

Comentários