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Tratamentos que dão retorno imediato podem ter mais sucesso em usuários de crack do que os que trabalham com ganhos futuros

02/08/2016 08:10 - Equipe Área do Médico

Diferentes pesquisas apontam que o uso de crack e de cocaína leva a prejuízos neurodesenvolvimentais que afetam áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisão. Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) publicado online no Journal of Clinical and Experimental Neuropsychology mostra que, por conta desses prejuízos, mulheres adultas adictas acabam se comportando como adolescentes -- ou seja, em momentos de decisão, o pouco controle e a falta de perspectiva futura sobre suas ações levam a um comportamento marcado pela exposição a riscos elevados. Mas, esse padrão de comportamento de risco pode ser alterado, pois, quando expostas às consequências de suas ações, elas passam a adotar comportamentos de tomada de decisão semelhantes ao de adultas não adictas. Esse achado pode abrir novas portas para o tratamento de usuários de drogas.

No artigo "Similarities between adult female crack cocaine users and adolescents in risky decision-making scenarios", os autores explicam que utilizaram a tarefa Columbia Card Task (CCT) para avaliar 27 usuárias de crack e cocaína e 18 adolescentes. Ambos os grupos eram de baixa renda. Além disso, 20 mulheres adultas não usuárias de drogas com educação e renda regulares compuseram o grupo controle.

O psiquiatra Dr. Rodrigo Grassi-Oliveira, coordenador do Laboratório de Neurociência Cognitiva do Desenvolvimento do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trauma e Estresse (NEPTE) do Instituto de Pesquisa Biomédica da PUCRS, explicou ao Medscape que o CCT é um paradigma de tomada de decisão que permite manipular algumas variáveis em relação ao risco que o participante assume. Na prática, assemelha-se a um jogo de baralho, cujo objetivo é alcançar a maior recompensa "monetária" possível. O baralho envolve cartas "boas" e "ruins" que levam a maiores ganhos ou perdas, respectivamente. Ao "virar" as cartas, o participante está assumindo um risco. Quanto mais cartas reveladas, maior a chance de ganho, mas também maior o risco de perdas.

O estudo foi conduzido durante o mestrado do psicólogo Bruno Kluwe Schiavon, sob sua orientação. "Já vínhamos trabalhando com usuárias de crack há algum tempo e em uma pesquisa anterior identificamos que essas mulheres tomavam decisões ruins nos momentos iniciais e permaneciam com esse padrão até o final, ou seja, não aprendiam com a experiência. A partir desse resultado, nos perguntamos o que aconteceria se fosse possível garantir que as participantes tivessem uma informação adequada precoce acerca da forma como estavam agindo. Decidimos então avaliá-las com o Columbia Card Task, que permite moldar diferentes 'feedbacks'", disse o médico, lembrando, no entanto, que seria necessário compará-las com algum grupo.

"O uso de crack está associado a disfunções em áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisão, ou seja, dificulta equilibrar prós e contras durante um julgamento. Há toda uma discussão de que possíveis danos nas estruturas pré-frontais seriam compatíveis com um padrão no qual as áreas da emoção (límbicas) são muito ativas. Na dependência química, o sistema de recompensa é muito ativo, enquanto a estrutura de tomada de decisão, de lógica é deficitária. Ou seja, tenho então muita emoção e pouco controle", esclareceu o Dr. Grassi-Oliveira.

Durante a adolescência, ocorre situação semelhante, porque embora estruturas emocionais, o sistema de recompensa e a sexualidade estejam bem ativos, as estruturas de maturação, de decisão, de lógica e de racionalidade não estão completamente desenvolvidas. "Como essas últimas áreas só se formam completamente no início da vida adulta, os adolescentes possuem alta ativação emocional e uma estrutura de controle deficitária", afirmou, explicando porque optaram por comparar as mulheres adultas adictas com adolescentes.

Para a pesquisa, os autores utilizaram uma versão da tarefa que adaptaram à realidade brasileira. Ambos os grupos (mulheres adultas usuárias de drogas e adolescentes) foram analisadas em dois contextos diferentes: (1) sem feedback, ou seja, só sabiam como haviam jogado (bem ou mal) ao final do jogo e (2) com feedback– ou seja, após virar certa quantidade de cartas o jogador recebia um pronto retorno com relação à forma como estava jogando.

"Quando analisamos os resultados no contexto de ausência de feedback, observamos achados que ratificavam nossa hipótese inicial: usuárias de crack e cocaína se comportavam de maneira semelhante a adolescentes, exibindo decisões que envolviam muito risco, uma vez que seus comportamentos dependiam unicamente de uma análise racional dos riscos daquele ambiente. O que nos surpreendeu foi que quando mudamos o paradigma e manipulamos a exposição aofeedback, ou seja, garantimos que, após selecionar certa quantidade de cartas, todas as cartas eram reveladas indicando quais eram boas ou ruins, usuárias de drogas se comportaram igual a mulheres não usuárias, escolarizadas (grupo controle). Então o feedback fez elas migrarem de uma semelhança com adolescentes, ajudando-as a tomar decisões como adultas que não são usuárias. Por outro lado, as adolescentes continuaram com o mesmo comportamento de alto risco", disse o Dr. Grassi-Oliveira.

Como boa parte dos tratamentos voltados para dependentes químicos trabalha com motivações futuras, ou seja, estimulam que os pacientes mantenham a abstinência em função de recompensas que serão atingidas posteriormente, os achados observados pela equipe da PUCRS podem indicar um novo caminho nesse sentido. "Esse experimento de tomada de decisão mostra que é muito difícil as usuárias de drogas inibirem a emoção atual, a fim de se planejar e de se controlar sem que recebam um feedback, um retorno imediato. Mas, existem outros tratamentos, como o manejo de contingência, que fornecem um retorno imediato. Portanto, talvez esse tipo de intervenção tenha um respaldo interessante. Atualmente, já existem alguns grupos que estão trabalhando com manejo de contingência em usuários de crack com bons resultados", disse o psiquiatra.

O médico enfatizou que as usuárias de crack vêm de um contexto social de muita desvantagem e, por isso, o grupo controle de adolescentes avaliado no estudo apresentava o mesmo backgroundsocial. Essa estratégia foi utilizada para evitar que o aspecto social figurasse como um possível confusor.

Fonte: Tratamentos que dão retorno imediato podem ter mais sucesso em usuários de crack do que os que trabalham com ganhos futuros. Medscape.

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