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Um terço das prescrições de antibióticos para os pacientes ambulatoriais podem ser inadequadas

24/05/2016 19:57 - Equipe Área do Médico

Com o uso excessivo de antibióticos levando ao aumento de infecções resistentes, os autores de um grande estudo descobriram que, entre 2010 e 2011, antibióticos foram prescritos para pacientes ambulatoriais nos Estados Unidos em todas as condições, com uma taxa de 506 a cada 1000 habitantes. Estima-se, no entanto, que apenas 353 destas prescrições eram realmente indicadas, sugerindo que 30% destes antibióticos podem ter sido desnecessários.

Estes resultados, publicados na edição de 3 de maio do Journal of the American Medical Association, destacam a necessidade de definir uma nova meta para a administração de antibióticos no ambulatório, de acordo com Dra. Katherine E. Fleming-Dutra, pediatra do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) em Atlanta, Georgia, e colaboradores.

Embora o governo americano tenha um plano de combate a bactérias resistente, com o objetivo reduzir à metade a taxa de uso ambulatorial inadequado de antibióticos até 2020, ainda faltam dados sobre a dimensão real do uso indevido. O novo estudo teve como objetivo preencher essa lacuna, estimando as taxas de prescrição ambulatorial de antibióticos por via oral por idade e por diagnóstico e a proporção que pode estar inadequada em adultos e crianças norte-americanas.

Os autores analisaram os dados de 2010 a 2011 da National Ambulatory Medical Care Survey e daNational Hospital Ambulatory Medical Care Survey.

Das 184.032 consultas médicas da amostra, 12,6% (intervalo de confiança [IC] 95%, 12,0% - 13,3%) geraram prescrições de antibióticos; com maior frequência, a cada 1000 habitantes, os antibióticos foram prescritos para sinusite (56 prescrições; IC 95%, 48 - 64 prescrições), otite média supurativa (47 prescrições; IC 95%, 41 - 54 prescrições), e faringite (43 prescrições; IC 95 %, 38 - 49 prescrições).

A cada 1000 habitantes, as doenças respiratórias agudas levaram a 221 prescrições de antibióticos (IC 95%, 198 - 245 prescrições) anualmente, mas estima-se que apenas 111 (50%) destas estavam indicadas. Além disso, das cerca de 506 prescrições de antibióticos (IC 95%, 458 - 554 prescrições) por 1000 habitantes, receitados anualmente por qualquer causa, acredita-se que apenas 353 (70%) estavam justificadas.

"Metade das prescrições de antibióticos para doenças respiratórias agudas podem ter sido desnecessárias, o que representa 34 milhões de prescrições de antibióticos anualmente", escrevem os autores. "Coletivamente, em todas as condições, estima-se que para 30% dos pacientes ambulatoriais, as prescrições de antibióticos orais podem ter sido inadequadas. Portanto, seria necessária uma redução de 15% no uso de antibióticos em geral para atender o objetivo do governo americano de reduzir o uso inapropriado de antibióticos no contexto ambulatorial em 50% até 2020."

Para faringite especificamente, os pesquisadores estimam que 72,4% (IC 95%, 66,8% - 77,4%) dos casos de faringite em adultos e 56,2% (IC 95%, 49,8% - 62,4%) em crianças foram tratadas com antibióticos, embora a maioria dos casos de dor de garganta não esteja relacionada comstreptococcus do grupo A. Na literatura recente, apenas 37% das crianças com faringite tiveram um resultado positivo no exame para este patógeno.

Regionalmente, as taxas de prescrição variaram anualmente de 423 na região oeste dos EUA (IC 95%, 343-504) para 553 (IC 95%, 459-648) na região sul.

Os dados são semelhantes aos relatados em outros países. Por exemplo, em 2015, um estudo holandês relatou que quase metade das prescrições de antibióticos escritos por clínicos gerais para o trato respiratório não seguiu as diretrizes clínicas.

Os pesquisadores do CDC também descobriram que as taxas estimadas de prescrições apropriadas a cada 1000 participantes variaram por faixa etária. Por idade, a taxa foi maior em crianças de 0 a 2 anos, em 1287 (IC 95%, 1085-1489) prescrições de antibióticos por 1000 habitantes. Para sinusite, foram 59 para as idades de 0 a 19 anos (IC 95%, 32-86), 27 para as idades de 20 a 64 anos (IC 95%, 17-36) e 37 para 65 anos idade ou mais (IC 95%, 16-59). Para otite média supurativa, as taxas estimadas foram 138 para as idades de 0 a 19 anos (IC 95%, 96 - 179) e 6 para as idades de 20 a 64 anos (IC 95%, 4 - 9).

"Esta estimativa de prescrições inadequadas de antibióticos para pacientes ambulatoriais pode ser usada para informar os programas de manejo de antibióticos na assistência ambulatorial pelos sistemas de saúde pública e suplementar para os próximos cinco anos", escreveram a Dra. Katherine e colaboradores.

Comentando em um editorial acompanhando o artigo,  a Dra. Pranita D. Tamma e a Dra. Sara E. Cosgrove, da Johns Hopkins University School of Medicine, em Baltimore, Maryland, disseram que as estimativas do estudo, embora provavelmente muito conservadoras, esclareceram pontos importante sobre as práticas de prescrição ambulatorial e "fornecem dados iniciais críticos sobre os quais podem ser realizados esforços futuros para sua melhora". Elas observam que, embora a maioria dos antibióticos seja prescrita no ambulatório, os esforços para uma melhor administração não tiveram muito sucesso neste ambiente.

No entanto, pesquisas mostram que medidas simples como um cartaz na sala de espera afirmando um compromisso para evitar prescrições inadequadas de antibióticos para infecções agudas do trato respiratório podem resultar em uma diminuição de 20% nas receitas de antibióticos.

Outras abordagens incluem justificativas documentadas pelo médico para antibióticos, comparações de prescrição entre colegas médicos e educação continuada do clínico com auditoria personalizada e feedback. Testes rápidos de diagnóstico realizados junto ao paciente também podem ajudar.

As editorialistas notam que melhorias nesta questão exigirão esforços em duas frentes: mudar o comportamento do médico para diminuir suas preocupações sobre a "incerteza diagnóstica, indisposição com os  pacientes e não seguir as práticas de outros colegas" e educar os pacientes quanto ao uso de antibióticos. Um estudo de 2015 descobriu que uma melhor comunicação entre médico e pais reduziu a prescrição de antibióticos na pediatria.

"Os trabalhos futuros precisam se concentrar em intervenções orientadas tanto para os médicos quanto para os pacientes para ajudar a alcançar a meta nacional", escrevem a Dra Pranita e Dra. Sara. "Será fundamental continuar a avaliar o progresso na melhora do uso de antibióticos em conjunto com a adoção generalizada de atividades de manejo de antibióticos nos ambulatórios."

JAMA. 2016; 315: 1839-1841, 1864-1873.

Esse projeto foi possível através de uma parceria com o Centers for Disease Control and Prevention Foundation. O financiamento para este projeto foi fornecido por Pew Charitable Trusts. Os autores não declararam conflitos de interesse relevantes. Dra. Sara relatou atuar como consultora para Novartis e que sua instituição recebeu verbas de Pfizer Grants for Learning and Change/The Joint Commission. Dra. Pranita relatou que sua instituição recebeu verbas de Pfizer Grants for Learning and Change/The Joint Commission e de Merck.

 Um terço das prescrições de antibióticos para os pacientes ambulatoriais podem ser inadequadas. Medscape.

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