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Uso muito precoce de cafeína e em altas doses em prematuros carece de confirmação científica

30/06/2016 19:38 - Equipe Área do Médico

A cafeína vem sendo usada de forma segura e eficaz em neonatos prematuros como estimulante respiratório, reduzindo a apneia da prematuridade – quadro comum em bebês com menos de 28 semanas de gestação – e na extubação. Mas, para o Dr. Eduardo Bancalari, da University of Miami Health System, dos Estados Unidos, o sucesso dessa estratégia tem levado a um uso excessivo, com o emprego cada vez mais precoce do composto e em doses elevadas, práticas que, segundo ele, não são respaldadas por evidências científicas até o momento. O alerta foi feito pelo médico durante uma sessão do dia 24 de junho no 10° Simpósio Internacional de Neonatologia, organizado pelo Grupo Perinatal no Rio de Janeiro.

Durante o evento, o neonatologista explicou que a cafeína reduz a frequência e a gravidade dos episódios apneicos em recém-nascidos pré-termos com apneia da prematuridade. Ele lembrou, no entanto, que estudos não encontraram evidência de que o composto seja capaz de reduzir a bradicardia e hipoxemia em bebês com menos de 32 semanas de gestação, de acordo com dados de um estudo publicado em 1988 no European Journal of Pediatrics.[1]

Por outro lado, o Dr. Bancalari destacou que há comprovação científica de que, ao ministrar cafeína no bebê pré-termo antes da extubação, aumenta-se a chance de sucesso nesse procedimento. "Mas, quanto aos efeitos colaterais, a literatura ainda não é tão robusta. Sabemos que o composto promove aumento na taxa metabólica e no consumo de oxigênio, havendo alterações hemodinâmicas e aumento do débito cardíaco", afirmou.

Também há evidências, segundo o médico, de que a cafeína leva a um menor ganho ponderal, ou seja, os bebês submetidos a essa terapia crescem menos, bem como a "redução no fluxo sanguíneo cerebral e gastrointestinal", disse.

O neonatologista lembrou ainda o estudo CAP Trial Caffeine Therapy for Apnea of Prematurity, publicado em 2006 no The New England Journal of Medicine,[2] que avaliou pré-termos com penso entre 500g e 1,250 kg que receberam cafeína ou placebo, durante os primeiros dez dias de vida. "Os resultados não evidenciaram dano neurológico agudo a partir de investigação feita com ultrassom e mostraram menor incidência de displasia broncopulmonar". Outra investigação citada por ele, publicada em 2007 também no The New England Journal of Medicine,[3] mostrou que os pré-termos de muito baixo peso que receberam cafeína apresentaram benefícios aos dois anos de idade, por exemplo, redução da taxa de óbito, de paralisia cerebral e de risco de atraso cognitivo. Mas, segundo o médico, aos cinco anos de idade, a vantagem havia desaparecido, de acordo com um estudo publicado no Journal of the American Medical Association em 2012.[4]

Os benefícios apontados nas pesquisas levaram, segundo o especialista, a um aumento marcante no uso de cafeína nas unidades de terapia intensiva neonatais. "Os neonatologistas estão muito confiantes, mas, vemos certa 'loucura' atualmente, com a cafeína sendo utilizada até mesmo na sala de parto", disse, lembrando que o uso do composto em prematuros, com menos de 1500g ao nascimento passou de 40% em 2000 para 80% em 2004 nos Estados Unidos, de acordo com um paper publicado no Journal of Pediatrics em 2014.[5]   

O mesmo estudo do Jornal of Pediatrics mostrou, segundo o Dr. Bancalari, que o início precoce do uso de cafeína (dose inicial até os três primeiros dias de vida) leva a um risco significativamente menor de displasia broncopulmonar ou óbito. "É preciso, no entanto, ter cautela quanto a esses resultados, porque como o estudo não foi randomizado, pode haver um viés. Ou seja, se os bebês morrem muito cedo, não poderão receber cafeína", alertou.

"As pessoas pensavam que como a cafeína é boa, um pouco mais podia ser melhor. Com isso, passaram a usar doses cada vez maiores e iniciadas mais precocemente", destacou o médico e afirmou que, inclusive, estudos com doses quatro vezes maiores que a recomendada (20 mg/Kg contra 5 mg/Kg) observaram menos falha na extubação e menor apneia, citando, por exemplo, o estudo publicado em 2004 no periódicoArchives of Disease in Childhood Fetal and Neonatal[6]. Além disso, disse o Dr. Bancalari, "as pesquisas não encontraram diferenças estatisticamente significativas com relação aos desfechos neurológicos e de toxicidade das doses maiores".

O problema, segundo o médico, é que "não há coerência na literatura, pois há pesquisas que mostram benefícios e outras que mostram prejuízos", afirmou, e mostrou, por exemplo, que testes em animais, publicados no periódico Pediatric Research de 2014[7]  apontaram aumento da apoptose de células do pulmão associado ao uso de cafeína. Já um estudo-piloto em bebês pré-termos, também publicado pelo Pediatric Research , de 2015,[8] submetidos à alta dose de cafeína (80 mg/kg contra 20 mg/kg) nas primeiras 24h de vida mostrou que aqueles que receberam alta dose tiveram aumento significativo de hemorragia.

"Esses dados servem de alerta: cafeína é uma das drogas mais eficazes para apneia da prematuridade e para extubação de pré-termos e segura nas doses regulares. Mas não há evidência ainda que apoie a mudança para administração mais precoce ou doses mais altas. Ao contrário, há evidências indicando que isto pode ser perigoso. Ainda são necessários mais estudos sobre o tema", concluiu o Dr. Bancalari.

Fonte: Uso muito precoce de cafeína e em altas doses em prematuros carece de confirmação científica. Medscape

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